
Todos nós, em algum momento, já sentimos ansiedade, num exame, numa entrevista, numa situação nova.
Mas viver com ansiedade generalizada é outra coisa.
É ter o coração acelerado sem razão aparente.
É estar cansado antes de o dia começar.
É sentir que algo está sempre prestes a correr mal… mesmo quando tudo está (aparentemente) bem.
Falo disto não só como observador, mas como alguém que convive com pessoas que sofrem deste mal silencioso. Não duvidem, é mesmo isso que acontece: silencioso, invisível e, apesar de todas as políticas, subestimado.
De acordo com os dados mais recentes do INE, 34,3% dos portugueses com 16 anos ou mais apresentam sintomas de ansiedade generalizada e não estamos a falar de um desconforto ligeiro. Na verdade, 11,1% têm níveis graves. Números que são mais altos do que a média europeia.
Na Europa, cerca de 25 milhões de pessoas vivem com perturbações de ansiedade, sendo a ansiedade generalizada uma das mais prevalentes. A nível mundial, estamos a falar de 264 milhões de pessoas com perturbações de ansiedade em geral. Assim sendo, cerca de 3,7% da população é afetada diretamente por esta doença mental.
E mesmo assim, ainda se ouvem frases como “tens de te acalmar” ou “isso é só da tua cabeça”. Como se fosse uma escolha.
É, digamos, como estar permanentemente com o botão do alarme ligado. Mesmo nos dias bons, há uma parte do cérebro que insiste que algo pode correr mal. E não, não é uma questão de “pensamento negativo”, mas uma resposta automática, muitas vezes irracional e absolutamente real para quem a sente.
São noites mal dormidas, dores no corpo, dificuldade em tomar decisões simples. evitar telefonemas, adiar compromissos, reflectir por cada palavra dita ou ouvida e, ainda, sentir culpa por não conseguir controlar aquilo que não se controla.
Assume-se também como a melhor forma de lidar com o medo de ser julgado, posto que quem vive com a ansiedade generalizada, além de tudo isto, muitas vezes sente vergonha.
Claro que existe uma enorme falta de empatia, falta literacia emocional, falta de informação e/ou formação sobre a saúde mental (nas escolas, nas empresas, nas famílias). Falta acesso a psicólogos no SNS e faltam de políticas públicas eficazes que reconheçam que a saúde mental significa saúde. Ponto.
Mas falta, acima de tudo, espaço.
Espaço para falar, para sentir, para pedir ajuda sem medo de ser rotulado, porque não existe qualquer fraqueza em reconhecer que se vive num sofrimento constante. Antes pelo contrário, trata-se de uma vida de coragem, maior até que os ditos super homens, os que estão cheios de saúde - pensam eles!!!
Devemos, portanto, falar, escrever, partilhar e ouvir sem julgar. É isso que ando a tentar neste espaço!!!
No fundo, mostrar que quem vive com ansiedade generalizada não está sozinho e que existem terapias, estratégias, recuperação. Mas o primeiro passo é quebrar o silêncio. E é isso que se espera.
E se, por mero acaso, este texto fizer sentido, nem que seja a uma só pessoa — seja para se reconhecer ou para reconhecer o outro — então já valeu a pena.
Peço, caso o entendam, que reforcem este humilde contributo. Assim como um desafio.
*Imagem:
Título: Generalized Anxiety Disorder Infographic
Autor: Jelynns27
Licença: Domínio público (Public Domain)
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