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Mensagens

A mostrar mensagens de junho, 2025

A Biografia de um morto

Desenho: Variações com carvão (BSD:2021) ____________________________________________________________________________________________________ No separador "Ensaios" existem dois projectos de contos.  Como não serão publicados em livro, ficam aqui a marinar. Pode ser que alguém se divirta tanto a ler como eu me diverti a escrever. Quando sentimos que o que escrevemos nos faz sentir muito bem, então é porque escrevemos com o coração e, naturalmente, com a cabeça.  Acabei por seguir o conselho do amigo João Afonso. Ver:  https://letrasenotas.blogs.sapo.pt/indeciso-21186   ____________________________________________________________________________________________________ A Biografia de um Morto Parte 1: Dizem que quando se morre se vê uma luz branca no fundo de um túnel. Não foi isso que me aconteceu. Quando morri, lembro-me muito bem, não havia luz devido a um corte de energia numa das fases da casa onde estava. Portanto, estava escuro como breu e a minha mãe tinha ...

Partir

Partir é deixar para trás as pessoas, as casas, as ruas, a vida que levámos até ao momento em que a decisão, tantas vezes forçada, nos impele a procurar algo novo, uma vida nova, uma esperança. Foi isso que fez o Joaquim,  tal como tantos outros que deixaram este Portugal de miséria. Deixou um país onde comer uma côdea de pão era um luxo, onde dormir num colchão era um sonho, onde as mãos se desgastavam na terra e no mar. O Joaquim, ainda jovem, não tinha outra saída senão lançar-se no desconhecido, numa viagem que só conhecia pelo que ouvira dizer. Uma terra que não era a sua, que era longe, muito para além do horizonte, para além do pouco que sabia. Cheio de coragem, e de medo, deixou para trás o cheiro do campo, o calor da família e partiu com uma pequana mala com pouca roupa e muitas dúvidas. Essa terra prometida era um sonho distante, uma miragem que, por vezes, parecia inalcançável. Mas era também uma esperança — a oportunidade de escrever uma nova história - longe da fome e d...

O meu companheiro

Nunca lhe dei um nome. Não por esquecimento, mas talvez por estar ali, pendurado, há anos, firme, imóvel, quase imperceptível, mas constante, na sua presença. Um pequeno leão de peluche, com olhos grandes e curiosos, agarrado ao metal como se soubesse que aquele é o seu posto. Enquanto eu me perco nas páginas dos livros, é ele quem, sem dizer uma palavra, me guia. Não aponta, não sugere em voz alta, apenas observa. E, de alguma forma, parece saber exactamente qual o livro que preciso de consultar, antes mesmo de eu perceber. Há algo de mágico nessa quietude, como se cada silêncio fosse uma orientação e cada olhar parado um sinal. Fiel e discreto, nunca se queixa de nada e gosta de ouvir música clássica! É um verdadeiro companheiro, um confidente do meu pensamento, do meu tempo. Hoje olhei para ele com mais atenção e percebi que, mesmo sem nome, sempre esteve lá, como se fosse uma bússula a indicar-me o norte silencioso das minhas noites, mergulhado nas páginas dos meus outros companh...

Reflexão sobre a solidão

A solidão não é só a ausência de companhia. É, também, a presença crua de tudo o que fui obrigado a "calar". É o espelho que não perdoa. O silêncio que já não me consegue enganar. É o lugar onde me encontro depois de ter sido abandonado por tudo ou por todos. Há uma solidão que dói mais do que a falta do outro, É a solidão de estar comigo e não saber o que fazer com a mesma. É olhar para dentro e não reconhecer a casa onde habito, como se a minha alma tivesse envelhecido antes do corpo. Como se tivesse deixado partes de mim pelo caminho e agora andasse a tentar dar sentido a um puzzle onde não existem as peças que faltam. Lembro-me daquela criança que fui. Tímida, de olhos pequenos, não grandes porque isso todos dizem que têm, mas de coração cheio. Sozinha muitas vezes. Mas nunca vazia. Porque nesse tempo a solidão era normal, pelo menos para mim, Mas eu tinha, digamos, o dom de criar castelos imaginários. Brincava com o vento e falava com as pedras da calçada, como se fossem...

EVEN IN THE QUIETEST MOMENTS

O vídeo foi gravado na ilha de Lazarote, a mesma que Saramago escolheu para viver, aqui fica uma das muitas músicas dos Supertramp Even in the quietest moments I wish I knew what I had to do And even though the sun is shining Well I feel the rain, here it comes again, dear And even when you showed me My heart was out of tune For there's a shadow of doubt that's not letting me find you too soon The music that you gave me The language of my soul Oh Lord, I want to be with you. Won't you let me come in from the cold?   Don't you let the sun fade away Don't you let the sun fade away Don't you let the sun be leaving Won't you come to me soon   And even though the stars are listening And the ocean's deep, I just go to sleep And then I create a silent movie You become the star, is that what you are, dear? Your whisper tells a secret Your laughter brings me joy And a wonder of feeling I'm nature's own little boy But still the tears keep falling They'...

Sombra

A tua sombra está torta, Não consigo compreender. Será de ti, ou da sombra? Ou será da reflexão da luz que te ilumina. A tua sombra está torta, desvanecida, Porventura estará morta?

A saudade

Nasci num final de tarde de Junho. Entrei neste mundo através das entranhas adormecidas da minha mãe, Num silêncio que não era só o da anestesia, Era o dela também. Não me ouviu chorar, não me sentiu chegar, Não me viu. Mas carregou-me, sem a memória daquele instante, a vida inteira. Ainda hoje me carrega. Ainda hoje a carrego nos meus gestos, nos meus silêncios, E sempre que observo o céu, Mesmo quando as nuvens o preenchem, Existe sempre uma estrela que se faz notar. É ela.   * Nota: Este era um dos fados que ela adorava ouvir. Ainda guardo o single, assinado por ela.   ____________________________________________________________________________________________________ Video:  https://www.youtube.com/watch?v=6lJXKn2nH7o&ab_channel=A.soares