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A mostrar mensagens com a etiqueta #2025

O que conta

Os dias que contam. Contam os dias em que o sol brilha, Contam os dias em que chove a “cântaros”, Contam ainda os dias cinzentos, Que obscurecem a nossa existência. Contam todos os dias, Todos os pássaros que cantam, Todos os peixes que sobrevivem ao Homem, Todos os que contam os dias como seus, Individual e cinicamente  nossos. Foto: @BSD

A minha catarse

A catarse precisa de ser feita, sem qualquer sombra de dúvida, sempre que exista uma razão para isso. Não é um sinal de fraqueza nem de perda de controlo; não tem nada de dramático. Ao longo da vida passamos por fases que nos desafiam e que nos obrigam a parar, a reflectir ou, simplesmente, a tomar a decisão tão esperada, como é o meu caso: a saída da vida profissional. Nos últimos tempos, tenho percebido isso de forma ainda mais clara. A entrada na reforma, por exemplo, é um desses momentos que parece ter tudo para ser leve e libertador, mas nem sempre é assim. De um dia para o outro, mudam as rotinas, as referências, o propósito diário. Ficam espaços vazios que antes estavam preenchidos, surgem dúvidas, inquietações, até medos que nunca imaginámos sentir. Os ditos "amigos" deixam de ligar, a vida segue e segue para os dois lados. Uns continuam a trabalhar e outros não: já o fizeram.  E é precisamente aí, nesse desnorte discreto, nessa solidão social e por vezes famili...

Momentos de Paz

Junto ao azul do mar, Descanso o meu olhar. Descanso, também, as minhas inquietudes, As que me assaltam diariamente. Junto ao mar azul, Com o vento de sul a soprar, Vejo o tempo passar, Adormecendo, finalmente, o meu pensar. Ali, sentado na areia, Sinto-me envolvido pela sensação de paz, Pelo meu sentimento de abandono. Ao longe, o barulho dos viventes atarefados! Deixá-los ir. Eu fico aqui, junto ao azul infinito do mar.   Postal: Conforme indicado no mesmo.

O candeeiro

Tenho uma relação séria e duradoura com o candeeiro da minha rua. À primeira vista pode parecer uma afirmação insólita, talvez até absurda, mas há, entre nós, um entendimento silencioso que ultrapassa a mera funcionalidade.  Ele oferece-me luz e eu ofereço o propósito de “ser”. Na sua presença o caminho torna-se visível. Não apenas o caminho físico que percorro, mas também aquele que se insinua dentro de mim sempre que a noite cai e o mundo se recolhe. Sem a sua luz seria mais difícil distinguir o real do imaginário.  Sem o meu olhar talvez a sua existência passasse despercebida, como tantas outras presenças mudas que nos rodeiam. Vivemos uma espécie de pacto discreto: ele ilumina-me e eu reconheço-lhe o valor.  Quando, por vezes, se apaga - porque até a luz mais constante acaba por soçobrar ao tempo - sou eu quem lhe devolve a chama, substituindo a lâmpada com o cuidado de quem trata de um velho amigo. Neste gesto simples reside uma verdade maior: nada existe por ...

Na obscuridade

Hoje a escrita não me sai. As mãos não se movem, A tinta não escorre da caneta e o papel não existe. Raspo, em sinal de desespero, A velha mesa de madeira com a ponta da navalha. E, aos poucos, vão nascendo figuras geométricas entrelaçadas, Como num desenho abstrato que nunca será. Pouco mais consigo perceber, ouvir ou ver, A não ser a pálida e intermitente luz da vela, Que treme sobre a superfície gasta da velha mesa.

EDUARDO, o homem e o seu tempo - Parte III

10. Ao sair, não deixou de dizer, em alta voz aos restantes. Impugnem isto, façam-no em defesa da honra. Isto é uma vergonha. O nortada ao ouvir tal palavra, advertiu o amigo e secretário que tal palavra não era bem-vinda na assembleia, visto que esta representava a comunidade canina. O pulgas , para não se chatear, rematou: - A comunidade canina? Mas qual comunidade canina? A comunidade canina está toda aqui, por acaso? Vê mas é se acabas com esta palhaça. Eu já nem quero ouvir falar mais de namoros e casamentos entre humanos. Naturalmente que o nortada e, principalmente, o negrão perceberam a atitude do pulgas . Os outros nem por isso, a não ser do seu já mencionado mau feitio. Mas, de todos, o que ficou mais satisfeito foi o trovão , – a pom-pom já não me escapa, pensou. A saída do pulgas e a entrada da pom-pom retiraram qualquer hipótese de continuidade da assembleia. Era notório o desagrado, o tempo perdido e o desinteresse pelo problema do dono do nortada . A única c...

EDUARDO, o homem e o seu tempo - Parte II

6. O sol já tinha despontado e com ele o nortada e o Eduardo. Sentiam uma leve brisa, sinal de que a sensação de calor poderia ser menor do que a de ontem. O nortada levantou-se e caminhou direitinho aos seus recipientes onde a água e a comida o aguardavam. Hoje tinha de comer bem para levar a cabo a grande aventura; a assembleia. Ia ser um dia complicado, até porque não estava certo se conseguiria congregar o “pessoal”. Mas isso logo se via. Para já tinha de comer, beber muito e depois meter-se ao caminho. O Eduardo, sem desconfiar nada do que o nortada estava a congeminar, também se levantou, tomou o seu parco e habitual pequeno-almoço e saíram os dois na direcção da oficina. O nortada já tinha pensado como iria fazer. Nada de fugas, nem surpresas para o dono. Tinha de convocar a assembleia para junto da oficina. Assim o dono não desconfiava e muito menos perceberia o que eles estariam a falar. O problema é que não sabia como dar a volta às casas, cabanas e quintais onde...

EDUARDO, o homem e o seu tempo - Parte I

1. O tempo - dizia o outro - corre devagar, muito devagar, assim como se entre um segundo e o outro segundo existissem vários momentos de paragem. Se calhar tinha, ou tem, razão. A verdade é que o Eduardo não tinha tempo. Não sabia, há muito tempo, o que era olhar despreocupadamente para a linha do horizonte, não sabia que, apesar de todo o rebuliço que lhe ia na cabeça, a vida não pára, o tempo não espera e que a sua angústia diária apenas o levava a um vazio no tempo, um limbo, um espaço oco, anti material, nada mais. Mas não sabia, não pensava nesse “tempo” nem por um segundo. Interessavam-lhe mais os objectos metálicos que tinha na sua oficina, as rodas, os pneus, os carros dos clientes com o óleo para mudar. Máquinas de um tempo que não conhecia, mas que tinha de arranjar, assim sem saber quais os momentos que cada uma tinha. Achava que um carro era, talvez com razão, o testemunho de uma vida, a vida de quem o conduzia e, assim como se fosse um cientista do tempo, tinha a ab...