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EDUARDO, o homem e o seu tempo - Parte I

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1.

O tempo - dizia o outro - corre devagar, muito devagar, assim como se entre um segundo e o outro segundo existissem vários momentos de paragem. Se calhar tinha, ou tem, razão.

A verdade é que o Eduardo não tinha tempo. Não sabia, há muito tempo, o que era olhar despreocupadamente para a linha do horizonte, não sabia que, apesar de todo o rebuliço que lhe ia na cabeça, a vida não pára, o tempo não espera e que a sua angústia diária apenas o levava a um vazio no tempo, um limbo, um espaço oco, anti material, nada mais.

Mas não sabia, não pensava nesse “tempo” nem por um segundo.

Interessavam-lhe mais os objectos metálicos que tinha na sua oficina, as rodas, os pneus, os carros dos clientes com o óleo para mudar. Máquinas de um tempo que não conhecia, mas que tinha de arranjar, assim sem saber quais os momentos que cada uma tinha.

Achava que um carro era, talvez com razão, o testemunho de uma vida, a vida de quem o conduzia e, assim como se fosse um cientista do tempo, tinha a absoluta convicção que os dois formavam uma unidade, uma vida, um momento, vários, muitos, segundos.

Mas esses eram os pensamentos que tinha e era com esses que queria viver, era a sua vida era o seu tempo, eram os seus momentos.

Eduardo não tinha, digamos assim, grandes preocupações. Geria a sua vida por momentos, uns atrás dos outros, tudo a seu tempo, como costumava dizer quando, nas raras vezes que frequentava o café, se encontrava com dois amigos de infância, o Tó e o Jorge.

Poucas palavras trocavam. Passavam o tempo, o pouco que dividiam, a jogar cartas, mais nada, poucas palavras, não havia tempo, as recordações de outros tempos chegavam aos três para, sem falar, se entenderem apenas com o olhar.

Naquele dia o Eduardo não andava lá muito em disposto, andava assim meio entorpecido, descrente talvez, mas nada de especial, era a porcaria de um pneu que ainda b tinha chegado do fornecedor e o cliente já o tinha chateado duas ou três vezes.

Isso era o pior, talvez a pior das suas preocupações, o não cumprimento dos prazos, a falha do tempo previsto, a não entrega do automóvel no tempo acordado, sob a palavra dele. Isto de depender de terceiros não era do agrado do Eduardo, preferia depender do seu tempo.

Juntou a pouca comida que levava para a oficina e no caminho ia pensando, remoendo naquela grande preocupação. Não queria chamar à atenção do fornecedor para não criar clivagens - bem falado. Por outro lado, não queria assumir a sua falta de palavra para com o cliente, mas sabia que tinha de resolver a situação.

Havia de se resolver.

Por agora pedalava na sua pasteleira, herdada do pai, a caminho do seu ninho de trabalho, o do amor sempre esteve vazio à excepção de uma paixoneta que teve, ainda nos tempos da escola primária, por uma prima.

A coisa não funcionou porque além de prima por parte da mãe o era também por parte do pai, quer isto dizer que ele era filho de um casamento entre dois primos. Portanto, fiel às suas convicções e sem tempo para pensar nestas coisas do amor, se assim se pode chamar, não a esqueceu, colocando essa paixoneta de lado apenas e só para não ter momentos de desagrado com a família, que era grande e muito próxima, já se vê.

Assim, olhava os campos sempre com atenção à estreita estrada de paralelos que faziam a sua pasteleira chiar, frutos dos longos anos que tinha e dos muitos percursos que percorrera na sua longa “vida”.

No fundo, ele e a pasteleira eram um só, uma unidade, uma equipa cúmplice do movimento temporal dos anos, meses, dias, minutos e segundos,

Mesmo quando estava na oficina a pasteleira esperava por ele, encostada a uma parede de pedra, mas com um pedaço de madeira a ampará-la para não danificar os punhos. Era assim que a queria, eterna, bonita, apesar de antiga.

Neste aspecto o Eduardo tinha razão, as coisas materiais podem não acusar os anos, assim se tratem como nos deveria tratar a vida, assim o tempo fosse para nós aquilo que é para elas, assim a morte não fosse uma certeza como é para os Homens.

Mas pronto, a vida é a vida e nas questões da morte não gostava de pensar.

Já lhe tinha morrido o pai, a mãe, os avós, apenas lhes restavam tios e os primos, entre eles, a tal prima, e o cão, o Nortada, como se chamava.

O Nortada era a sua companhia maior, passava o dia e a noite sempre por perto, era assim como um conselheiro, um amigo a tempo inteiro.

O Eduardo percebia bem os dois ditados que conhecia sobre os cães, aquele da fidelidade e o da longevidade, aquela coisa dos sete anos por cada um do homem.

- Até aqui o tempo nos coloca para trás, pensava muitas vezes. Compreender essa conta e saber que um cão com 5 anos tinha, nas contas que algum iluminado fez, afinal 35 anos, era uma chatice.

- O tempo dos cães é menor que o da bicicleta, mas maior que o nosso, pensava o Eduardo, e pensava bem, achava.

Todas estas ideias fizeram-no pensar sobre o tal tempo, aquele tempo que apenas se vê nas rugas, nos cabelos brancos, nos olhos cansados, nessas coisas da velhice, algo que ainda não lhe tinha chegado e como tal, como só tinha 30 anos, o tempo dele em relação a outros também estava desfasado.

Para casar já ia tarde, para morrer ainda era cedo...que porra de coisa, o tempo.

2.

Mas da sua vida, nas questões do tempo, o Eduardo não se queixava de nada. Vivia em silêncio.

Aliás, fazia tudo para que a sua vida apenas lhe dissesse respeito a ele, mais ninguém, mesmo que falasse sozinho - o que acontecia muitas vezes - era com ele que ficavam os pensamentos longos, perdidos no tempo e no espaço.

Esta forma de pensar foi, talvez, produto de umas leituras que fez.

Aprendeu na escola o suficiente para saber ler e escrever, o ofício futuro agradeceu, o que bastou para gostar de ler. Ler livros, nada de jornais que esses apenas dizem o que querem, que falassem do Tempo, do Espaço, essas coisas mais interessantes.

Os livros, mandava-os vir do Porto, através de um amigo, o Tó que trabalhava numa quinta vinhateira, ali bem perto da cidade.

Sabia o que queria e por uns mandava vir outros e foi assim que dentro da sua casa os livros se tornaram “pedras preciosas”. Invadiam o espaço e consumiam o seu tempo curto, mas pleno de ócio. Mas não era ócio, era conhecer, pensar no que lia, reflectir, olhar para o céu ou para o longe, luxo que tinha apenas quando lia, apenas à noite e por isso não via o horizonte há muito tempo, porque o horizonte não se vê à noite.

A par desse pequeno luxo, Eduardo tinha mais uma pequena mania, gostava de ouvir o som que vinha do seu pequeno rádio, sempre que se sentava junto à lareira a ler os seus livros, a sua companhia.

A pequena sala estava composta. O Nortada deitado junto ao dono e o dono sentado junto à lareira. Assim passava as noites de Inverno, mas também as de Verão, apenas mudava a fonte de calor da lareira para as noites quentes do Douro.

Nessas noites, em que as estrelas brilhavam lá na imensidão do espaço, pensava, embora não quisesse, na prima. Remoía-lhe a paciência lembrar-se dela, mas não conseguia evitar – o mal foi vê-la hoje quando vinha da oficina com aquele vestido de linho branco a ondular com a brisa, naquele andar sereno e cativo – mesmo que tenha tentado fazê-lo desde o dia em que se apaixonou.

Agora era diferente, tinha de decidir, tomar uma decisão, não podia, nem queria, continuar a viver com aquele nó na garganta, com o coração apertado. A bem ver não queria ficar sozinho e o Nortada podia deixá-lo e depois como seria? Quem lhe faria companhia?

Não. Tinha de ser.

Sabia que não lhe podia oferecer uma vida rica, nem de longe, nada tinha, ou antes tinha uns terrenos deixados pelos pais, mas não lhes ligava nenhuma, eram baldios esquecidos, memórias desses tempos de produtividade da vinha onde pisaram os seus avós, seus pais e ele. Sim, ele.

Talvez por isso se tenha divorciado da terra, não tinha jeito e não queria lembrar os maus momentos que por ali passara. As vezes que, ainda miúdo, carregava a cesta colina acima até à Quinta, marcaram não só as suas costas como a sua mente.

Não, isso não quis e não pretende ter, mas existem, estão ali, mesmo ao mais pequeno esgar do seu olhar. Pode é ser um seguro para o futuro, quem sabe, e a prima poderia saber disso, assim soubesse ele que ela sabia.

Mas não sabia e nem queria entrar por aí, não queria pensar que a prima poderia vir a juntar-se a ele apenas porque tinha uns pedaços de terra para plantar vinha.

Esqueceu de imediato esse pensamento.

Agora tinha de se focar na abordagem. Era amanhã nem que tivesse de fazer algo que apenas fazia ao domingo, não ir à oficina.

Tinha de esperar, e a melhor maneira de fazer com que o tempo passasse depressa era dormir.

Durante o sono o tempo passa-nos ao lado, o tempo e os momentos. Não existe nada a não ser a doce sensação de ausência de vida, de barulho, de pessoas, de tudo, ainda que os sonhos nos queiram recordar que estamos vivos, mas dormir era a solução, o caminho, o momento, até chegar à prima.

Acordou sobressaltado, com o coração a bater tanto que pensou que ia ter algum ataque, mas como não bebia, não fumava e fazia exercício – andava de bicicleta – não se assustou muito. Rapidamente lhe veio à cabeça que era fácil pensar, o problema era falar.

Rotineiramente fez as coisas que fazia todos os dias e quando ia a sair de casa olhou, anos depois, o céu que estava azul, cheirou o ar que o envolvia todos os dias, e olhou em frente com aquele objectivo a que se tinha proposto.

Pegou na pasteleira e seguiu, estrada abaixo na direcção do café, na esperança de encontrar a prima. Era normal ela estar àquela hora junto à pequena mercearia onde todos os dias ia comprar o pão, entre outros produtos necessários.

Entrou quase a medo e sentou-se, esperando que o dono lhe viesse trazer o habitual. Reparou que ela não estava e perguntou-se porquê.

Hoje, após horas de pensamentos, de avanços e recuos na intenção, ela não estava!

Nem o naco de pão que mordiscou lhe soube bem. Saiu, pedalou e abriu o portão da oficina.

O dia estava bom, muito bom até. Sentou-se à porta e começou a olhar o infinito, como se de lá viesse a resposta que tanto queria, como se fosse do alto do céu que ela viria e lhe taparia a boca com as palavras que ele não sabia dizer.

3.

O nortada ladrava, assim como se estivesse para acabar o mundo, assustado, alerta, agitado.

- O que se passa contigo bichano?

O nortada a ladrar desta forma! Achou estranho e abeirou-se do portão da oficina. Ia a medo, o cão continuava a ladrar, a querer atirar-se a algo. Pelo, sim, pelo não, levava consigo a chave inglesa que estava a utilizar para desapertar umas porcas de um rodado que não queria sair.

Espreitou e quando achou que tinha de averiguar o que se passava, saiu num pulo para o meio do pequeno acesso.

Ao fundo, poeira e um chiar a lata, algo que fazia barulho e que se aproximava. Fixou o olhar bem ao longe e no meio da poeira, levantada pela brisa que soprava, vislumbrou alguém em cima de uma bicicleta, era isso. Olhando mais atentamente notou uma figura feminina, um vestido a esvoaçar.

O coração começou a bater com força e descompassado. A ideia de ser a prima fê-lo estremecer, perder as forças nas pernas e nos braços, a visão turvou, a chave caiu, escorregando entre os dedos da mão direita.

- O que vinha aqui fazer?

As perguntas saltitavam a um ritmo quase de alucinação.

Seria agora que ia arranjar coragem para lhe contar aquilo que não conseguiu pela manhã?

A prima aproximou-se da garagem, o nortada calou-se, deixou de ladrar, sentou-se com um olhar tão terno que parecia querer tomar o lugar do dono.

- Encosta aqui a bicicleta junto à minha, prima. Apressou-se a dizer, nem que fosse para dizer qualquer coisa, tal o garrote que lhe apertava a garganta.

- Obrigado, primo, respondeu-lhe com uma voz suave, límpida, e com um olhar de aprovação, de consentimento. Mas ele não sabia interpretar os sinais do amor.

Na verdade, sempre teve problemas em perceber qual o seu lugar na comunidade. Não era um social esperto, não sabia como agradar a gregos e a troianos e, como tal, era, por assim dizer, o eterno social excluído presente.

O Eduardo acreditava, ainda assim, nas pessoas, confiava, abria-se, nas poucas vezes que socializava. Pensava, apesar dos vastos avisos da sua falecida mãe, que as pessoas eram sinceras, cordiais e que as amizades não se perdiam - esfumadas no nevoeiro da intriga e dos jogos de bastidores numa luta desigual entre quem pretende e é sério e aqueles que o parecem - tal qual o velho ditado sobre a mulher de César.

Portanto, de vez em quando, lá se desiludia, lá se lixava e isso era mais comum que o oposto.

A vida é complicada - pensava o Eduardo.

Para ele não fazia sentido nenhum confiar nas pessoas, lutar por elas, ser-lhes leal e depois a mudança. Aquela mudança que reside, por exemplo, e ele tinha esse exemplo, no novo político que passada a fase do encantamento começa a distanciar-se daqueles que o ajudaram a conquistar o poiso que agora ocupa, ou ocupou.

Por isso mesmo nunca se interessou pela política, mas sofreu com isso.

Na verdade, o presidente da sua freguesia era primo direito dele e eram amigos, se eram.

Jogaram à bola, andaram na escola juntos, fizeram um percurso de amizade que com as escolhas, e entre o ir e o ficar - o Eduardo ficou e o primo foi para o Porto ganhar estatuto – se foi esfumando com o passar do tempo.

Porém, não o suficiente, quando o Eduardo dá por ela está a ser puxado pelo primo até à urna de voto e lá depositou o papelinho com a cruz. O voto é secreto, pensou.

Também não era por aí, o primo podia ganhar e podia ser que lhe arranjasse um lugar na junta, a arranjar o velho tractor que por lá resistia. Mas não, nada disso. Não só não conseguiu nada, como viu o primo a começar a olhar para o lado, assobiando, como se não o conhecesse.

Mas o que o deixou mais fulo, e daí o facto de ter cortado relações com ele, foi aquela coisa do primo, agora o Sr. Presidente, estar sempre junto dos que falavam mal dele, dos que não votaram nele!

Estratégias de futuro? Pensava ele na sua mais profunda sapiência de mecânico. Não se enganava.

A política é assim, se assim não fosse não se chamava política.

Mas, o que agora o preocupava não era a política, mas a prima que estava ali ao seu lado.

Mal sabia o que fazer, nem tão pouco lhe ocorria nada ao pensamento, de tão perdido que estava. Olhou, de soslaio, para o nortada quase que a pedir socorro, mas este estava deitado com a cabeça apoiada sobre as patas dianteiras e os olhos semi-cerrados. Nada lhe iria assinalar, como por vezes acontecia.

Resolveu, assim de repente, perguntar se não estava calor.

A prima, já meio distraída, respondeu-lhe que estava sim, mas nada de especial absolutamente normal para a época.

Devia ser ele que estava a sentir-se quente por causa dos nervos.

O tempo passava e as palavras não saiam, até que a prima, perante o silêncio do Eduardo, lhe transmitiu que ia embora porque ainda tinha de tratar de uns assuntos.

Ficou em pânico.

O nortada levantou a cabeça e colocou a língua de fora, como se fosse entrar em cena, como se fosse ele, um simples cão, a salvar a situação.

-Não vás já, fica mais um pouco. Já viste esta máquina que tenho aqui para arranjar? É um carro muito bonito, não é?

Ela olhou, meio desinteressada, e fez-lhe a vontade.

- Sim, é bonito. De quem é?

-De um cliente. Um bom cliente, daqueles que me pagam.

-Isso é bom. Quem trabalha merece ser pago, já dizem os mais antigos.

-Pois.

O assunto esgotara-se. A prima pegou na bicicleta passou pelo nortada, lançou-lhe um olhar de ternura e desapareceu no caminho, tão rápido como chegara.

Nem sabia o que pensar. Estava aborrecido, desiludido e acima de tudo, tinha aquela sensação de que tinha perdido aquela oportunidade. Quem sabe se existiria outra e quando seria, se é que voltaria a acontecer.

Virou-se para o nortada, olhou-o com tristeza e voltou ao trabalho.

4.

O dia tinha amanhecido com um sol escaldante, o vento nem soprava e a terra, seca pelo calor, emanava ondas de calor que deturpavam a visão.

Um dia seco e sem muito para fazer na oficina convidava a ficar em casa, a descansar, tratar de arrumar os livros que se iam acumulando junto à lareira e ao redor do pequeno sofá onde se sentava todas as noites.

O nortada estava, como sempre, junto a ele, mas nesta manhã também parecia meio atordoado. Já tinha bebido água mais vezes que o normal, só podia ser por via do calor.

Estava enganado o Eduardo.

O nortada estava preocupado, mas não era com o calor nem com a sede, era com o dono, era o Eduardo que o preocupava.

Sentia-o triste, sempre na mesma rotina diária, sempre a mesma coisa, o que, mesmo para um cão, era estranho.

Ao longo dos anos o nortada tinha acompanhado o seu dono, dia após dia, sem hesitar nem sequer se questionar muito, mas nos últimos tempos as atitudes ou falta delas, em particular, para com a prima, deixava-o num estado de preocupação permanente.

O melhor amigo do Homem é assim, sente, preocupa-se, nota muito bem as pequenas alterações ao modus vivendi do seu dono, uma vez que desde o primeiro dia são habituados a um determinado padrão de vivência. A menor alteração nota-se e faz-se notar.

O nortada gostava e queria ajudar o Eduardo, mas como?

Um simples cão, sem saber falar, sem saber exprimir em palavras o que achava que deveria dizer ao Eduardo, mas também à prima, como poderia resolver este assunto que, diga-se, não lhe dizia respeito algum? Vai na volta e o dono ainda se chateava com ele, fechava-lhe a porta e ficava na rua, acabando, dessa forma, com os serões junto á lareira que tanto apreciava. As noites dormidas no quentinho quando o frio se fazia sentir lá fora… acabar-se-ia tudo. Valeria a pena arriscar tudo isso por um assunto que estava fora da sua condição de canídeo?

Apesar de todas as cogitações o nortada também tem queixas, não culpa o dono, culpa-se a ele.

Deixou toda a sua vida para trás em favor da companhia do Eduardo. Ninguém se lembra, sabe-o bem, de o ter visto com um canídeo do sexo oposto, nada, nem sequer um esgar de tentativa que não fosse um olhar transviado sempre que passava pela pintarolas, a cadela do dono da mercearia, uma paixão primeira e até sempre.

A pintarolas, sim. Essa é que lhe dava a volta ao miolo, mas além de nunca tentar uma aproximação, também não viu sinais alguns que lhe indicassem que o caminho estava desimpedido. E não estava.

O raio do boxer do dono de uma das quintas lá da freguesia andava de olho na pintarolas. O trovão, como era seu nome, era um cão distante, de porte respeitável, de nariz no ar e com um andar vaidoso.

Sabia que uma disputa à antiga não lhe seria favorável e por isso preferia deixar que a pintarolas tomasse as regras do jogo e se decidisse pelo trovão ou por ele, um rafeiro filho de pais de diferentes raças e sem qualquer pedigree.

Não seria fácil uma vez que o melhor cliente do café e da mercearia, ambas do dono da pintarolas, era, precisamente, o dono do trovão.

Está-se mesmo a ver que um casamento assim não seria coisa despropositada, antes um arranjo medieval em que a geografia e a economia se fariam acrescentar e consolidar. Não tinha hipóteses algumas, pensou.

Apesar de tudo estar contra ele, era um rafeiro esperto como um alho, diga-se. Nem o trovão nem mil deles o haviam de enganar, já ela levava-o à certa. Mas isso não era a sua preocupação imediata, o Eduardo, sim.

O nortada saiu de casa sem se fazer notar, atitude pouco ou nada habitual. O Eduardo, no meio de tanta cogitação do nortada, do silêncio e do calor sufocante, acabaria por sucumbir aos prazeres do sono.

Caminho abaixo, na direcção do café pensava encontrar o negrão e o pulgas, dois canídeos amigos, assim como o Tó e o Zé eram amigos do Eduardo.

Pretendia falar com eles e pedir-lhes uma opinião sabendo, porém, que o segredo nunca chegaria a ouvidos humanos, mesmo que latissem à volta do mundo com os mais altos berros.

5.

- Como estás pulgas, e tu, negrão, estás melhor da pata?

O negrão tinha entalado a pata na porta da casa do seu dono. Com uma bebedeira daquelas, o dono do negrão não reparou que o canídeo o tinha acompanhado até casa na sua viagem desde a taberna e ao entrar em casa ficou com a perna traseira entalada na porta, magoando a pata direita.

- Tudo bem, respondeu o pulgas.

Já o negrão estava ainda dorido e coxeava, mas para o caso não tinha qualquer importância, apenas acenou com a cabeça, como que a dizer, assim, assim.

O nortada percebeu que era o local e o momento exacto para lhes pedir a opinião sobre a sua preocupação, como se fosse a uma consulta de psicologia, pedir ajuda a um técnico sobre um assunto que gostava de perceber, não a resposta, mas como agir. O que fazer para que conseguisse desatar aquele nó.

- pulgas e negrão, tenho um assunto que gostava de partilhar com vocês, mas atenção, nada de comentários entre o resto do pessoal, ok?

-Tás à vontade norta (diminutivo de nortada, muito usado entre amigos e, neste caso, canídeos que se estimam!)

-Então o que se passa? perguntou o pulgas que era um cão muito stressado, mas no bom sentido. Não parava quieto, parecia que estava ligado à electricidade, era um verdadeiro desassossego. O negrão nem por isso. Pesado, de pelo preto, era um cão já com idade e isso retirava-lhe a vitalidade que saudosamente revia no nortada, mas muito mais no irrequieto do pulgas.

-Bom, isto é assim. O meu dono anda muito mal.

-Está doente? perguntaram logo os dois em uníssono.

-Não está doente, doente, mas está doente.

-Não estou a perceber nada, retorquiu o trovão.

-Nem eu, acusou o pulgas que entretanto já se tinha sentado e levantado umas 10 vezes desde que começou a conversa. O nortada sabia que tinha de ser rápido, uma vez que o pulgas não se aguentava muito tempo no mesmo lugar, deve ter bicho carpinteiro, com certeza!

- Está doente de amores, anda apaixonado.

- E?!

-Então, não percebem?

-Não!

-Já vi que isto não vai correr bem!

-norta, o amor não é uma doença, a falta dele é que pode ser, e grande. Pergunta aqui ao trovão como ele ficou desde que viu aquela cadelita há mais de três anos. Nunca mais se endireitou, engordou, desmazelou-se com a imagem e deixou, imagina, norta, deixou de ligar aos apelos da zonza, que gosta tanto dele!

O negrão ouviu e nem abriu a boca, até o ar quente do dia, apesar de estarem numa sombra, lhe escaldou os pulmões, mas como era verdade o que o pulgas dizia, nem ganiu.

- Não sabia disso negrão, então não me digas que ficaste pelos beiços com aquela cadela branca que mais parecia um pom-pom.

O trovão não gostou e ameaçou levantar-se e ir embora, mandar à fava os problemas do norta ou do Eduardo. Queria lá saber disso para alguma coisa. Sempre soube resolver as suas situações e se hoje aquilo era assunto de conversa, foi por ter confidenciado ao pulgas essa atracção que sentiu pela cadelita.

-Mas afinal, o que me dizem? Que o amor não é uma doença!? O meu dono não está bem e vocês respondem-me dessa forma!

-norta, tens de perceber que nos amores de cada um ninguém se mete, percebes?

As palavras do pulgas não poderiam ser mais assertivas e, ao mesmo tempo, setas que foram na direcção do coração do nortada. Palavras sábias, com certeza, mas despropositadas entre amigos.

De qualquer forma, os amigos também servem para nos abrir os olhos e se calhar, pensou, estou a meter-me onde não sou chamado. São humanos, que se entendam, a bem da verdade o Eduardo nunca se preocupou em meter uma cunha ao dono da pintarolas.

- norta, avança o negrão, tens de perceber que nas coisas do coração quem manda é mesmo o sentimento, aquela dor na boca do estômago que cria e destrói relações. Não vês o que me aconteceu? Aquela, a que o pulgas falou ainda há pouco, derreteu-me o coração e nunca mais fui o mesmo. Já só falta tomar uns antidepressivos para ver se a minha mente tem sossego.

O pulgas ainda tenta ajudar, mas, sem o querer fazer, em vez de me acalmar ainda me irrita mais, nunca está sossegado e anda sempre a varejar. Isso eu já lhe disse mais que uma vez, descontrola-me e depois lá vão os restos de bolos, carnes, tudo o que aparece lá por casa, como tudo e de tudo e agora estou assim, gordo e velho. Deixa estar quem está. norta, nunca ouviste dizer que quem é de cá é de cá e quem é de lá é de lá?

-Não, nunca ouvi, nem sei onde foste buscar essa expressão! Mas vocês são capazes de ter alguma razão. Vou para casa e pensar um pouco nisto tudo.

-Fazes bem, vai que o Eduardo ainda te mete de castigo se notar que estás tão longe do castelo dele.

O nortada lá foi andando devagar, a contar as pedras do caminho, cabisbaixo, a pensar em tudo o que tinha sido falado naquela conversa com os seus colegas de condição.

Entrou em casa devagar, mas já era tarde.

O Eduardo tinha acordado daquela sesta forçada. Acordou meio zonzo, enjoado e cheio de sede e ao levantar-se não deixou de sentir uma pequena tontura, coisa muito rara nele. Atribuiu-a ao calor e lá foi na direcção da torneira, matando a sede com um púcaro de água.

Da pequena janela que estava defronte do antigo lava-louças – na verdade era uma pia – via o sol a lançar as suas chamas para a terra. A rua tinha hoje umas ondinhas de calor, estranhas mas bonitas, resultado do calor a tocar o chão e este a expulsá-las.

Por momentos não pensou em nada. Estava ali apenas a apreciar aquele momento, aquele dia em casa, a fugir do calor e isso sabia-lhe que nem ginjas.

De repente ouve um pequeno ruído, como se a porta estivesse a ser aberta, mas muito devagar. Olhou prontamente e notou a cabeça do nortada e depois o resto do corpo a entrar, sorrateiramente, em casa.

Apercebeu-se que com a sesta não tinha dado por falta do seu companheiro e sentiu-se culpado, mas não haveria de ser nada.

-Anda cá ao dono nortada, meu amigo. Não tens calor, sede? Andas por aí com este calor ainda ficas doente.

O nortada, imperturbável nos seus pensamentos, ainda não tinha desligado o botão das suas preocupações e só quando o dono lhe fez uma festa no dorso é que acordou para a realidade.

-Então bichano, o que tens? Não me faças gastar dinheiro no veterinário, vá senta-te e bebe um pouco de água.

O nortada estava engasgado. Queria vomitar as palavras que pretendia dizer ao dono, mas pela sua condição e pela confusão que lhe ia na cabeça nem sequer esboçou o mais inaudível latido. Aquelas palavras do negrão não lhe saiam da cabeça - quem é de cá é de cá e quem é de lá é de lá !!! - mas o que quis ele dizer com isto?

O nortada poderia estar confuso com as palavras do negrão, mas não iria desistir – vou andar de porta em porta e convocar todos os outros para uma assembleia. Sim, é isso. Uma Assembleia.

As assembleias servem para falar, discutir o indiscutível, estar duas horas a esgrimir a melhor localização de uma vírgula num qualquer texto e, finalmente, votar.

Era isso mesmo que ia fazer, ainda que nada, uma possibilidade a considerar fortemente, de concreto pudesse sair dessa assembleia.

Mal sabia o nortada que este era o início de um percurso político que iria ocupar uns bons anos da sua vida: vinte, aqui para nós que ninguém nos ouve.

Amanhã iria correr todos os quintais, casas, esconderijos – conhecia bem onde encontrar os canídeos – e arregimentar todos, fossem machos ou fêmeas, não queria saber.

Tinha de resolver o problema do Eduardo e isso justificava todos os esforços que tivesse de fazer, todos.

O Eduardo, ainda estremunhado da sesta forçada pelo calor, achou por bem não perturbar o nortada. Estava deitado no chão fresco da casa e quase a dormitar, pensava o Eduardo. Na verdade, estava a estruturar a forma como haveria de fazer a sua palestra no meio de todos os cães da zona.

O resto do dia foi passado numa calma estival, entre o acordar sonolento e o adormecer.

Amanhã seria um novo dia para os dois. O raiar do sol haveria de trazer, nesse novo dia, mudanças significativas na vida de Eduardo, mas principalmente na vida do nortada.

(Continua)

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Tenho uma relação séria e duradoura com o candeeiro da minha rua. À primeira vista pode parecer uma afirmação insólita, talvez até absurda, mas há, entre nós, um entendimento silencioso que ultrapassa a mera funcionalidade.  Ele oferece-me luz e eu ofereço o propósito de “ser”. Na sua presença o caminho torna-se visível. Não apenas o caminho físico que percorro, mas também aquele que se insinua dentro de mim sempre que a noite cai e o mundo se recolhe. Sem a sua luz seria mais difícil distinguir o real do imaginário.  Sem o meu olhar talvez a sua existência passasse despercebida, como tantas outras presenças mudas que nos rodeiam. Vivemos uma espécie de pacto discreto: ele ilumina-me e eu reconheço-lhe o valor.  Quando, por vezes, se apaga - porque até a luz mais constante acaba por soçobrar ao tempo - sou eu quem lhe devolve a chama, substituindo a lâmpada com o cuidado de quem trata de um velho amigo. Neste gesto simples reside uma verdade maior: nada existe por ...

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  Nota prévia: Antes de ler o que abaixo se expõe, consulte  https://www.ilo.org/pt-pt/resource/news/viol%C3%AAncia-e-o-ass%C3%A9dio-no-trabalho-afetam-mais-de-uma-em-cada-cinco-pessoas  (acedido em 05/10/2025)   Já há muito tempo que sentia a necessidade de escrever uma breve reflexão sobre o impacto do assédio moral no trabalho na saúde mental dos trabalhadores, particularmente no contexto da Função Pública. Isto sem prejuízo das entidades privadas, que necessitam de uma abordagem diametralmente diferente. Este é um tema delicado, muitas vezes ignorado nas discussões institucionais, mas cuja gravidade se reflecte diariamente na vida de milhares de pessoas que enfrentam ambientes laborais hostis, relações hierárquicas abusivas e culturas organizacionais permissivas face à violência psicológica. A saúde mental tem sido, nos últimos anos, objecto de maior atenção, mas ainda se encontra envolta num certo silêncio social, sobretudo quando relacionada com o trabalho. Em Portugal, o...