
Tenho uma relação séria e duradoura com o candeeiro da minha rua.
À primeira vista pode parecer uma afirmação insólita, talvez até absurda, mas há, entre nós, um entendimento silencioso que ultrapassa a mera funcionalidade.
Ele oferece-me luz e eu ofereço o propósito de “ser”.
Na sua presença o caminho torna-se visível. Não apenas o caminho físico que percorro, mas também aquele que se insinua dentro de mim sempre que a noite cai e o mundo se recolhe.
Sem a sua luz seria mais difícil distinguir o real do imaginário.
Sem o meu olhar talvez a sua existência passasse despercebida, como tantas outras presenças mudas que nos rodeiam.
Vivemos uma espécie de pacto discreto: ele ilumina-me e eu reconheço-lhe o valor.
Quando, por vezes, se apaga - porque até a luz mais constante acaba por soçobrar ao tempo - sou eu quem lhe devolve a chama, substituindo a lâmpada com o cuidado de quem trata de um velho amigo.
Neste gesto simples reside uma verdade maior: nada existe por si só. Tudo depende do olhar, da atenção, do acto de cuidar.
O candeeiro, aparentemente inerte, ensina-me sobre a interdependência das coisas.
Lembra-me que até a luz precisa de ser sustentada, e que até o mais solitário dos objectos tem um papel a cumprir no teatro da existência.
Quando chegar o fim deixaremos de nos encontrar, mas algo entre nós persistirá: a memória dos caminhos iluminados, das noites partilhadas, da silenciosa fidelidade entre o ser e o estar.
Foto: https://paixaoporlisboa.blogs.sapo.pt/iluminacao-publica-e-candeeiros-de-51977
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