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Mensagens

Reflexão sobre a Saúde Mental e Assédio Moral no Trabalho: Um problema global

  Nota prévia: Antes de ler o que abaixo se expõe, consulte  https://www.ilo.org/pt-pt/resource/news/viol%C3%AAncia-e-o-ass%C3%A9dio-no-trabalho-afetam-mais-de-uma-em-cada-cinco-pessoas  (acedido em 05/10/2025)   Já há muito tempo que sentia a necessidade de escrever uma breve reflexão sobre o impacto do assédio moral no trabalho na saúde mental dos trabalhadores, particularmente no contexto da Função Pública. Isto sem prejuízo das entidades privadas, que necessitam de uma abordagem diametralmente diferente. Este é um tema delicado, muitas vezes ignorado nas discussões institucionais, mas cuja gravidade se reflecte diariamente na vida de milhares de pessoas que enfrentam ambientes laborais hostis, relações hierárquicas abusivas e culturas organizacionais permissivas face à violência psicológica. A saúde mental tem sido, nos últimos anos, objecto de maior atenção, mas ainda se encontra envolta num certo silêncio social, sobretudo quando relacionada com o trabalho. Em Portugal, o...

Sonhos interrompidos

De repente, o sonho de uma noite calma desvaneceu-se. Nesse instante, tudo se alterara. Tudo mudara com aquele sorriso repentino e inesperado, com aquele olhar profundo e cintilante. Não podia resistir aos impulsos do outro, muito menos aos seus próprios. Sentiu que naquela noite a sua vida ia sofrer a tão esperada mudança. Uma tempestade de emoções preenchia-lhe a cabeça. Já nem conseguia pensar. Voltar para os braços de quem abrira a porta do seu coração era tudo o que desejava. O quarto estava escuro; na cama aguardava o aconchego, o calor do outro. Mas esse momento parecia não mais acontecer. Acordou, meio desorientada, e só então se permitiu aceitar que tudo o que estava a sentir não era mais do que os ecos de uma noite em que ele deixara a sua cama. Um ano antes. * *Texto de 23 de Março de 2006 Desenho: BSD

O candeeiro

Tenho uma relação séria e duradoura com o candeeiro da minha rua. À primeira vista pode parecer uma afirmação insólita, talvez até absurda, mas há, entre nós, um entendimento silencioso que ultrapassa a mera funcionalidade.  Ele oferece-me luz e eu ofereço o propósito de “ser”. Na sua presença o caminho torna-se visível. Não apenas o caminho físico que percorro, mas também aquele que se insinua dentro de mim sempre que a noite cai e o mundo se recolhe. Sem a sua luz seria mais difícil distinguir o real do imaginário.  Sem o meu olhar talvez a sua existência passasse despercebida, como tantas outras presenças mudas que nos rodeiam. Vivemos uma espécie de pacto discreto: ele ilumina-me e eu reconheço-lhe o valor.  Quando, por vezes, se apaga - porque até a luz mais constante acaba por soçobrar ao tempo - sou eu quem lhe devolve a chama, substituindo a lâmpada com o cuidado de quem trata de um velho amigo. Neste gesto simples reside uma verdade maior: nada existe por ...

Na obscuridade

Hoje a escrita não me sai. As mãos não se movem, A tinta não escorre da caneta e o papel não existe. Raspo, em sinal de desespero, A velha mesa de madeira com a ponta da navalha. E, aos poucos, vão nascendo figuras geométricas entrelaçadas, Como num desenho abstrato que nunca será. Pouco mais consigo perceber, ouvir ou ver, A não ser a pálida e intermitente luz da vela, Que treme sobre a superfície gasta da velha mesa.

EDUARDO, o homem e o seu tempo - Parte III

10. Ao sair, não deixou de dizer, em alta voz aos restantes. Impugnem isto, façam-no em defesa da honra. Isto é uma vergonha. O nortada ao ouvir tal palavra, advertiu o amigo e secretário que tal palavra não era bem-vinda na assembleia, visto que esta representava a comunidade canina. O pulgas , para não se chatear, rematou: - A comunidade canina? Mas qual comunidade canina? A comunidade canina está toda aqui, por acaso? Vê mas é se acabas com esta palhaça. Eu já nem quero ouvir falar mais de namoros e casamentos entre humanos. Naturalmente que o nortada e, principalmente, o negrão perceberam a atitude do pulgas . Os outros nem por isso, a não ser do seu já mencionado mau feitio. Mas, de todos, o que ficou mais satisfeito foi o trovão , – a pom-pom já não me escapa, pensou. A saída do pulgas e a entrada da pom-pom retiraram qualquer hipótese de continuidade da assembleia. Era notório o desagrado, o tempo perdido e o desinteresse pelo problema do dono do nortada . A única c...

EDUARDO, o homem e o seu tempo - Parte II

6. O sol já tinha despontado e com ele o nortada e o Eduardo. Sentiam uma leve brisa, sinal de que a sensação de calor poderia ser menor do que a de ontem. O nortada levantou-se e caminhou direitinho aos seus recipientes onde a água e a comida o aguardavam. Hoje tinha de comer bem para levar a cabo a grande aventura; a assembleia. Ia ser um dia complicado, até porque não estava certo se conseguiria congregar o “pessoal”. Mas isso logo se via. Para já tinha de comer, beber muito e depois meter-se ao caminho. O Eduardo, sem desconfiar nada do que o nortada estava a congeminar, também se levantou, tomou o seu parco e habitual pequeno-almoço e saíram os dois na direcção da oficina. O nortada já tinha pensado como iria fazer. Nada de fugas, nem surpresas para o dono. Tinha de convocar a assembleia para junto da oficina. Assim o dono não desconfiava e muito menos perceberia o que eles estariam a falar. O problema é que não sabia como dar a volta às casas, cabanas e quintais onde...

EDUARDO, o homem e o seu tempo - Parte I

1. O tempo - dizia o outro - corre devagar, muito devagar, assim como se entre um segundo e o outro segundo existissem vários momentos de paragem. Se calhar tinha, ou tem, razão. A verdade é que o Eduardo não tinha tempo. Não sabia, há muito tempo, o que era olhar despreocupadamente para a linha do horizonte, não sabia que, apesar de todo o rebuliço que lhe ia na cabeça, a vida não pára, o tempo não espera e que a sua angústia diária apenas o levava a um vazio no tempo, um limbo, um espaço oco, anti material, nada mais. Mas não sabia, não pensava nesse “tempo” nem por um segundo. Interessavam-lhe mais os objectos metálicos que tinha na sua oficina, as rodas, os pneus, os carros dos clientes com o óleo para mudar. Máquinas de um tempo que não conhecia, mas que tinha de arranjar, assim sem saber quais os momentos que cada uma tinha. Achava que um carro era, talvez com razão, o testemunho de uma vida, a vida de quem o conduzia e, assim como se fosse um cientista do tempo, tinha a ab...