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EDUARDO, o homem e o seu tempo - Parte III

10.

Ao sair, não deixou de dizer, em alta voz aos restantes. Impugnem isto, façam-no em defesa da honra. Isto é uma vergonha.

O nortada ao ouvir tal palavra, advertiu o amigo e secretário que tal palavra não era bem-vinda na assembleia, visto que esta representava a comunidade canina.

O pulgas, para não se chatear, rematou: - A comunidade canina? Mas qual comunidade canina? A comunidade canina está toda aqui, por acaso? Vê mas é se acabas com esta palhaça. Eu já nem quero ouvir falar mais de namoros e casamentos entre humanos.

Naturalmente que o nortada e, principalmente, o negrão perceberam a atitude do pulgas. Os outros nem por isso, a não ser do seu já mencionado mau feitio.

Mas, de todos, o que ficou mais satisfeito foi o trovão, – a pom-pom já não me escapa, pensou.

A saída do pulgas e a entrada da pom-pom retiraram qualquer hipótese de continuidade da assembleia.

Era notório o desagrado, o tempo perdido e o desinteresse pelo problema do dono do nortada.

A única coisa positiva naquilo tudo, era a sombra onde estavam deitados uns, sentados outros, e para o trovão a possibilidade, muito rara, de se esfregar naquele monte de pelo branco e a cheirar a perfume, podia agora ser uma realidade.

Não restou, perante os factos ali passados, ao nortada que desse por terminada a assembleia.

Quando o fez já só restavam três ou quatro canídeos. Os outros tinham seguido o pulgas.

O nortada seguiu com o negrão e o trovão foi tentar a sorte com a pom-pom.

O Eduardo, estando mesmo ao lado daquele ajuntamento de cães, nem por sombras pensou que o assunto seria uma discussão sobre ele.

Tinha estado ocupado com dois clientes que apareceram por lá, um deles era o dono do trovão, a tratar de assuntos da oficina.

Na verdade, nem o calor o distraiu, nem a prima apareceu nos seus pensamentos, quanto mais as tropelias do nortada e seus associados. Mas estranhou aquele ajuntamento.

Mais logo, quando chegasse a casa, haveria de notar, ou não, alguma atitude estranha no nortada.

Passado pouco mais de uma hora fechou o portão da oficina e dirigiu-se a casa.

No caminho ia pensando na questão do ajuntamento dos canídeos. Se aquilo se repetisse não teria outra hipótese do que falar com os donos. Não queria ajuntamentos junto à oficina.

Não era por dele, mas porque existiam clientes que não gostava de cães desconhecidos. Tinham medo das mordidelas alheias.

Aliás, há tempos o nortada ia mordendo o filho de um cliente passante – daqueles que estão de viagem e se vêm obrigados a parar por algum problema mecânico na viatura – e o resultado foi o não pagamento do serviço em troca do susto do miúdo que ficou branco como a cal, esgotando os lenços de papel que a família tinha levado para as férias. É que todos tinham alergia ao pólen!

Além disso ainda teve de ouvir as pragas da mãe do miúdo e a quase agressão do pai. Se lhe tivesse dado um estalo tinha ido parar à Vestiaria.

- Não vou permitir isto, pensou.

Pedalando e pedalando, a bicicleta parecia que tinha gps, foi direitinho ao café.

O Eduardo não percebeu onde tinha perdido a noção do tempo e do espaço, mas não se importou.

Entrou, sentou-se e o dono da pintarolas lá veio com um belo copo de vinho tinto, um naco de pão e um pedaço de queijo seco.

-Muito obrigado. Agradeceu o Eduardo.

Ali esteve, até que decidiu sair e ir até casa. No fundo estava preocupado com o nortada que hoje não tinha parado junto a ele. Isso era algo que não era normal, mas ele sabia porquê.

A porta abriu-se com o habitual barulho das dobradiças, já velhas e cansadas e, nesse instante, já o nortada estava junto à porta, atento e com um olhar absolutamente normal, o rabo no ar e aquele baixar de cabeça, como quem pede a habitual festinha.

Eduardo ficou confuso.

Se calhar não se passava nada. O nortada não parecia acusar qualquer problema, conhecia-o muito bem.

Sendo assim, talvez aquilo tenha sido apenas uma reunião canina sobre assuntos que lhes deveriam dizer respeito, nada mais.

Foi em direcção à zona da cozinha e deitou um copo com água na malga do nortada. Sentaram-se os dois junto lareira.

O Eduardo na sua habitual cadeira e o nortada, depois de saciar a sede, lá se deitou com meio corpo em cima dos pés do dono.

Eduardo, quase de imediato, adormeceu, naquelas sonolências tão rápidas que não avisam.

O nortada também estava quase a cair na simpatia de um belo sono quando – os animais têm os sentidos mais apurados que nós, nunca se esqueçam – algo de estranho parecia aproximar-se da porta.

Como não tinha hipótese de abrir a porta, foi calmamente até à outra porta que dava para as traseiras, para o quintal, e num instante contornou a casa e lá encontrou o que lhe parecia ter sentido. Era o pulgas.

- O que estás aqui a fazer, não te disse que as conversas não podiam ser aqui!

- Tem calma amigo nortada, eu vim porque não quero estar chateado contigo.

- Achas bem o que disseste, a forma como me abandonaste?

- Não, não acho. Não fui correcto contigo, mas já não dava para aturar aquele cão, porra!!!

- Esse é um problema teu e dele, têm de o resolver, isto apesar da decisão ser da pom-pom.

- Já lhe pediste desculpa? Questionou o nortada.

- Já, mas ele não aceitou.

- Não te preocupes. Pedir desculpa é uma atitude nobre, não aceitar só demonstra o carácter do outro.

Um silêncio inundou aquela parte da casa, após um “xiu, tá calado”, “não digas nada”. O Eduardo está ali na sala, a dormitar, avisou o nortada.

- Tá bem marra, tá bem.

Nem um pio saiu da boca do pulgas, o que era uma grande conquista.

11.

A situação exigia calma e muita discrição.

O nortada não queria, nem por sonhos, que o Eduardo desconfiasse.

- Olha pulgas, vamos combinar mais uma reunião.

- Tá bem.

- Estava a pensar reunir na parte de trás da oficina, junto à velha árvore. Penso que ali o Eduardo não dará pela nossa presença.

- Ó nortada, grande ideia, grande ideia. O que queres que faça?

- Tu?

- Bom (ainda pensou como haveria de dizer ao canídeo mais falador da terra, uma autêntica língua de trapo) vais apenas falar com os amigos que estiveram na última reunião, ouviste?

- Sim, sim, nortada, tu é que mandas.

A baba saia em jacto pelos cantos da boca só de acreditar que o nortada estava a confiar-lhe uma tarefa. Nem queria acreditar.

O pulgas, como todos sabem, não consegue estar quieto e muito menos calado.

Na verdade, não teve uma infância fácil.

Os seus progenitores não se entendiam e a relação não durou após a primeira ninhada de oito cachorrinhos. Dois morreram, quatro foram parar ao canil e só ele e o irmão ficaram ao abandono.

O irmão teve uma sorte dos diabos. Andava deambulando na rua e uma freira que ia a caminho do seu mosteiro, agarrou-o e levou-o.

Nunca mais o viu.

- Esse indivíduo é que está bem, pensou.

- Deve estar gordo como um texugo, bem tratado, raios partam a minha sorte.

Mal sabia que o irmão, o xocas, tinha morrido atropelado por um tractor numa das poucas vezes que passou o portão do mosteiro!

*

- Combinado nortada, disse depois deste momento de recordação e dor.

- Agora não te esqueças, pulgas, de meter a boca no trombone. Olha que te tiro os dentes com um alicate!

- Tá descansado. A minha boca é um túmulo.

- Agora vai-te embora e nada de dar à língua.

O pulgas desatou a correr de tal forma que um pingo da baba foi parar ao focinho do nortada! O nortada, enojado, foi a correr para a malga de água e lá lavou o focinho! – Raios partam o pulgas, chiça.

Com tanto barulho que fez, acordou o Eduardo.

- Então nortada? O que se passa.

- Nada, estava a beber água. Não sei o que se passa comigo, ando cheio de sede e até tenho suores frios.

- Estás doente?

- Não. Estou bem. Apenas umas ansiedades que me têm atacado ultimamente. Sinto-me estranho, agitado e meio sem forças.

- Tem calma contigo nortada. Olha que a vida não é para desperdiçar com coisas que não importam. Dizia o roto ao nu, olha como andas tu.

- Vou dormir, disse o Eduardo. Ficas aqui ou vens?

- Fico aqui, disse o nortada, mas com a impressão que aquela frase poderia significar que o Eduardo já desconfiava de alguma coisa.

  1.  

Mais um dia quente naquelas paragens nortenhas.

O nortada acordou, já o Eduardo estava a tomar o seu pequeno-almoço habitual.

Cumprimentaram-se. O nortada com o típico olhar ternurento e o Eduardo com o gesto da “festinha” no dorso do nortada.

Saudações feitas, pequeno-almoço tomado, lá foram para a oficina. Havia muito que fazer e o nortada tinha muito em que pensar.

Sentado à sombra, mesmo à entrada da oficina, começou a aperceber-se de um barulho nada habitual para aqueles lados. Não que não existissem lá na aldeia, mas por ali raramente passavam.

Lampeiros e completamente despreocupados, vinha a dupla, bingo e jasmim, dois gatos forasteiros que, pensou, deveriam estar perdidos.

O bingo era um gato muito bonito, de tonalidade castanho-escura e uns olhos azuis que ofuscavam quem o fixasse olhos nos olhos.

O jasmim era um gato mais novo que o bingo, de pêlo negro e uns olhos amarelos, também não passava despercebido. Na verdade, eram primos e unidos como tudo. Quem fizesse algo a algum, levada com os dois.

O nortada, sem qualquer tipo de hesitação, correu a ladrar à força toda para os dois gatos, mas estes nem estremeceram. Ficaram a olhar para o nortada que ainda corria como um doido, mas qualquer coisa o fez pensar que o melhor seria uma abordagem mais calma, não fosse ser arranhado por estes dois forasteiros e depois era uma chatice para curar a ferida e explicar o porquê da mesma. – Tenho de ser diplomata.

- Então amigos, a passear?!

- Diga, respondeu o bingo.

- Se estão a passear, perguntei por curiosidade.

- Não, viemos visitar uma prima que vive nesta terra, respondeu o jasmim.

- Uma prima! Uma gata?

- Não, uma cadelinha que se chama pom-pom.

- Quem? A pom-pom!!

- Conhece? – Perguntou o bingo.

- Conheço sim, mas como pode ser vossa prima?

- Ora, amigo, nascemos no mesmo quintal, a nossa dona, depois de vir do estrangeiro, viveu alguns anos em Matosinhos e depois veio para a sua terra natal, esta aldeia, e trouxe a pom-pom e nós ficámos no gatil.

- A pom-pom viveu em Matosinhos?!

- Não viveu, foi lá que adoptada, juntamente connosco.

Afinal toda aquela “proa”, aquelas unhas bem arranjadas, o pêlo muito bem tratado, não era obra de uma cultura, mas consequência de uma adopção por parte de uma pessoa que tinha vivido no país da moda. Pensou para si o nortada.

- As verdades vêm sempre ao cimo como o azeite.

- Como? Perguntaram, em uníssono os gatos.

- Nada. Esqueçam.

- Ora, para encontrarem a pom-pom, não é fácil. Ela nunca sai da mansão onde vive, mas têm sorte porque vamo-nos juntar todos ao final da tarde e podem reencontrar a vossa “prima”.

- Que gentil. E onde é essa reunião.

- É aqui mesmo. Às 18:00, certinhas. Mas tenham cuidado com o trovão.

- O trovão?

- Isso é uma história muito comprida. Depois eu conto-vos.

- Está bem. Já ficamos muito agradecidos por nos dar a oportunidade de reencontrar a nossa prima.

- Não são os únicos que andam com os miolos à volta por causa das primas.

O bingo e o jasmim, não percebendo o que o nortada queria dizer com aquilo, foram sentar-se junto à oficina, aguardando a tão esperada hora da reunião.

- Olhe, ó Sr.…, qual é o seu nome?

- nortada.

- Obrigado e até logo.

- Até logo, amigos! E não se esqueçam, nada de grandes conversas com a pom-pom. Ela é uma verdadeira celebridade aqui na aldeia, em particular para o trovão.

Os gatos, confusos, mas curiosos, acenaram com a cabeça e sem perder tempo foram sentar-se à sombra da velha árvore. O nortada, por sua vez, voltou à oficina.

O tempo passou e, como prometido, os gatos estavam na oficina com pontualidade britânica, às 18:00. O bingo e o jasmim estavam tranquilos, uma vez que apenas lhes interessava o reencontro com a pom-pom.

Então, nortada, onde está a nossa prima? – Perguntou o bingo, com voz firme.

- Não se preocupem, ela vai aparecer.

Ao longe começaram a ouvir um barulho estranho.

Esperem – disse o nortada, olhando para o caminho que vinha da aldeia para a oficina.

A poeira subia com uma força que mais parecia um furação e ouvia-se, aproximando-se, o barulho intermitente de quatro patas. Era o trovão e de bom humor é que não parecia estar.

- Já começaram? perguntou com a voz cansada de tanto correr.

- Não vês que não. És o primeiro a chegar, informou o nortada.

- Ainda bem, quero arranjar lugar junto à “minha” pom-pom.

O bingo e o jasmim perceberam de imediato que a informação do nortada estava certa. Este trovão tinha uma fixação pela pom-pom que não era brincadeira.

- Quem são estes dois? Perguntou o trovão ao nortada.

O nortada teve de arranjar uma resposta que não comprometesse o Bingo e o Jasmim, omitindo a verdadeira razão da presença deles naquele local, naquele momento.

- São dois gatos que apareceram aqui e como está muito calor, por aqui ficaram à sombra da velha árvore. São o bingo e o jasmim, estão apresentados.

- Boa tarde, disseram os dois.

- Boa tarde, respondem o trovão. Eu sou o trovão. Aqui o nortada conhece-me muito bem. Não é nortada?

- Sim, sim, e de que maneira.

Os gatos são bons a demarcar o seu território, mas o trovão, sem se mexer e sem nada saber da presença dos gatos ali, mais parecia que já sabia.

Estava este ambiente, assim meio estranho, quando um cheiro a perfume começou a vaguear pelo ar. Era a pom-pom, a famosa cadelinha da aldeia.

- pom-pom! – exclamou o nortada, estupefacto.

- Sim, sou eu. E vocês, meus queridos, estão bem dispostos.  

Os gatos nem miaram, ficaram em silêncio, reagindo àquele porte, àquela beleza.

- Senta-te aqui…senta-te aqui, convidou o trovão.

-Ok, mas vê como te comportas. Tens a mania de abusar da confiança dos outros e eu não estou para te aturar.

Dito isto, o trovão petrificou, mas não se mexeu um centímetro. Sentia o perfume e não fosse o problema respiratório que tinha o cheiro a rosas não o incomodaria. Mas foi o contrário. Começou a espirrar e, contra a sua vontade, teve de se colocar no lado oposto da pom-pom, do lado de onde soprava o vento.

A pom-pom, com toda esta agitação do trovão, nem reparou nos gatos. Mas eles viram-na e reconheceram logo a sua desaparecida amiga, agora reencontrada.

Mas o tempo passava e um após um, lá foram chegando os participantes na assembleia.

Assim que estavam todos sentados, deitados e calados, após terem terminado os cumprimentos e as codrelhices, o nortada disse.

- Vamos lá acabar com isto. Agora ou vai ou raxa.

13.

- Esta é a última assembleia, como já vos tinha dito. Por isso temos de chegar a uma conclusão sobre como juntar o Eduardo e a prima, de uma vez por todas.

Os gatos estavam sentados junto à árvore, mas conseguiam ouvir tudo e vislumbrar a pom-pom, que estava meio escondida pelo corpalhaço do trovão.

O pulgas, incomodado com um cheiro estranho que deambulava pelo ar, disse em surdina à pintarolas. - Meteste perfume?

- Quem? Eu?

- Sim, está aqui um cheiro intenso a perfume de rosas.

- Não se pode mesmo, até já tenho os olhos congestionados – retorquiu o pulgas. E eu também, disse o negrão.

- Mau. Já disse que eu não coloquei qualquer perfume.

- Olhem, porque não perguntam à vossa querida pom-pom?

Naquela frase notava-se um pouco de inveja. Não que a pintarolas não fosse uma jeitosa, mas a pom-pom tinha mais possibilidade de se embelezar. Era perfumes, manicures, pedicures, cabeleireiro…enfim. Tinha tudo. E, por vez, pensou, quem é feio fica bonito, só por isso. Eu sou como sou e sou bem gira. Pelo menos é o que dizem.

Junto à velha árvore, os dois gatos observavam todo aquele grupo de cães que se ia juntando à medida que chegavam os mais atrasados.

- Aquele cão é mesmo grande! – Disse o jasmim.

- Grande e mau. Não vez a língua dele de fora da boca, aqueles dentes e os olhos esbugalhados. Será muito velho? – Perguntou o bingo.

- Não sei. Sabes, o melhor é estarmos aqui sossegados. Confiar em cães, não é para mim.

Deixa-os estar entretidos e no fim vamos atrás da pom-pom e falamos com ela.

- Tens razão jasmim. É uma boa ideia.

Decorria animada a assembleia, embora sem grandes conclusões, até que o nortada sente barulho na oficina e, do lado da aldeia; era o barulho de uma bicicleta.

Só podia ser a prima do Eduardo que vinha, quem sabe, à oficina.

Como naquele tempo não havia telemóveis e o telefone da oficina estava avariado, o nortada achou que podia estar combinado o encontro entre os dois. Isto porque ao mesmo tempo que a bicicleta se aproximava da oficina, o Eduardo vem à porta e dá com aquele grupo de canídeos sentados em círculo e ainda repara nos dois gatos.

Afinal a ideia de se juntarem na parte de trás da oficina não dera resultado.

Entre a curiosidade de perguntar ao nortada o que estava a acontecer e o nervosismo em receber a prima, Eduardo resolveu-se pela segunda, posto que tinha de se acalmar. Da primeira trataria depois.

O certo é que a prima entrou com o Eduardo para dentro da oficina, após se terem cumprimentado. O nortada, assim como todos os restantes ficaram pasmados e sem razão alguma para continuar com a assembleia, mas permanecendo sentados, agora a aguardar pelo que sairia daquele encontro.

A expectativa era enorme, todos cogitavam, aqui e ali, segredando ao ouvido do que lhe estava mais próximo, o que viria daquele encontro inesperado.

A pom-pom, aborrecida que estava com a espera, começou a olhar para a direita, para a esquerda, em frente. Enfim, estava a ficar entediada pela perda de tempo e pelos avanços do trovão que, aproveitando a ocasião, não parava de lhe tecer elogios.

Foi num desses olhares distantes que vislumbrou os dois gatos, que estavam sentados sobre as pernas traseiras, numa pose de quem não tinha qualquer medo em esconder-se, a não ser do trovão.

- Olha, o bingo e o jasmim. Parecem-me eles…

- Quem? perguntou o trovão com uma voz de espanto.

- São os meus amigos de infância, os meus primos. Crescemos juntos na mesma casa. Mas o que estão aqui a fazer, perguntou-se.

- Quem? Aqueles gatos que estão ali?

- Sim, sim. Vou lá ter com eles. Vão reconhecer-me, com toda a certeza.

O nortada apercebendo-se da movimentação da pom-pom, ainda tentou impedi-la de falar com os restantes. – Pessoal, não façam barulho. Não queremos incomodar os pombinhos.

O coro de riso que se seguiu foi instantâneo, mas a pom-pom estava longe de se incomodar. Já se tinha sentado na relva, recostada no tronco da velha árvore. Estava, digamos assim, preparada e cheia de curiosidade para saber tudo sobre os seus velhos amigos.

O bingo e o jasmim sentaram-se junto dela, como se fossem apêndices do seu passado, aqueles amigos que sempre viveram juntos, mas que por vicissitudes várias, o decurso da vida os tinha afastado. Agora, novamente juntos, não queriam pensar no amanhã, mas naquele momento, acreditando que desta vez nada os faria separar. Foram um trio cúmplice quando eram novos, agora, já autónomos, nada nem ninguém os poderia afastar.

Já se percebe que existiam vários ambientes dentro do mesmo ambiente.

Na assembleia, agora suspensa, a maioria já dormitava, abrindo e fechando os olhos de quando em vez.

Junto à velha árvore, pelo contrário, o reencontro até estava a correr bem.

Falavam de memórias, da vida da pom-pom, após a saída dela da casa da sua dona em Matosinhos. Essas coisas de que se fala quando se reencontra uma velha e genuína amizade.

Só quem não estava bem, agitadíssimo até, era o trovão. A inquietude e a ciumeira em que estava, não permitiram que ficasse sossegado e evitasse o que minutos, muito poucos, depois, viria a acontecer.

- Saiu de pé de mim e trocou-me por dois gatos!

Se o pensou, mais depressa agiu e sem pensar. Vai daí e num repente, tão rápido que nem o nortada, ou os restantes membros da assembleia, conseguiram reagir, o trovão sai a correr em direção à velha árvore.

Queria saber a razão daqueles gatos estarem ali, e mais, porque é que a pom-pom estava tão juntinha a eles.

A areia levantava-se a cada vez que as suas patas tocavam o chão e o barulho da sua correria assustou o bingo e o jasmim que se refugiaram nos ramos mais altos da velha árvore.

- Stop já aí! Furiosa, a pom-pom, fez um olhar ao trovão que o fez estacar, terminando a sua correria tão rapidamente como a tinha começado.

- O que se passa? Tens algum problema? Não tens vergonha em assustar os meus primos como mais uma das tuas atitudes impensadas?

- Os teus primos!? Mas como, teus primos? Eles são gatos e tu não!

- Sim, os meus primos. E não, não tens nada a ver com isso. E se queres saber, já que nunca to disse, aqui vai.

- Não significas nada para mim. Antes ficar sozinha, do que estar com um cão como tu. Mau carácter, sempre a ralhar, desconfiado e ciumento.

- O negrão é bem melhor que tu, mesmo mais velho é uma boa alma, tem um bom coração, é simpático, cortez e houve uma altura que pensei que podíamos ser namorados.

O negrão até mudou de cor com o que acabara de ouvir. Mal, é verdade, porque não ouvia muito bem, mas os que estavam ao seu lado, acabariam por completar as partes que ele não conseguiu apanhar.

- É negrão, hein. Quem havia de dizer que a pom-pom tinha um fraquinho por ti.

- Cala-te pulgas, não chateies o negrão, disse a pintarolas.

O trovão, perante tais palavras, sentiu uma tontura, um aperto no coração e as pernas, outrora fortes, a tremer. Não se aguentou em pé e ao cair, ainda teve forças para chamar. – Nortaaaaadddaaaa….

O nortada, a pintarolas, o pulgas e o negrão, este mais devagarinho, apressaram-se a socorrer o trovão.

Os amigos são assim. Apesar do feitio de cada um, quando é preciso juntarem-se não hesitam.

- trovão, trovão. Então meu, o que se passa? Estás bem?

- Ai, que ele não está nada bem. – Exclamou a pintarolas. Chama o INEM, chama o INEM, disse para o pulgas.

- O INEM? Mas sei lá eu o que é isso.

- Ó rapaz, vai lá ter com o Eduardo e diz-lhe para chamar o INEM. Não tens préstimo para nada, pulgas. Só sabes é falar da vida alheia.

- Talvez não seja preciso, disse o bingo.

- Mas como sabes. Perguntaram todos em uníssono. Todos menos a pom-pom.

- Ele está a respirar. Tenham calma e afastem-se. Dêem-me espaço.

- jasmim, chega aqui. Agarra-lhe nas pastas da frente e começa a agitá-las, enquanto eu vejo os olhos dele.

O tempo parecia passar depressa e o trovão ainda jazia no chão. Mas o bingo estava certo.

O trovão estava vivo, apenas tinha tido uma comoção daquelas que manda qualquer cão ou gato abaixo.

-trovão.

- Siiimmmm. Quem é.

- Somos nós, os teus amigos.

- O trovão, já com o olhar mais definido, viu a cara de dois gatos, bem próximos da dele.

- Hei, o que estão a fazer. Larguem-me as patas. Olha agora, gatos e que que gatos.

- trovão. Foram eles que te salvaram. Disse o nortada.

- A sério?

- Sim, claro que foi a sério. Já estávamos para chamar o INEM e tudo.

O trovão, ao saber que devia a vida àqueles gatos de quem não gostava, nem os conhecia e ainda por cima eram primos da pom-pom - a ingrata que lhe partiu o coração – levantou-se devagarinho e abraçou-os.

O bingo e o jasmim quase que sufocavam com a força do abraço, mas depois lá ficaram livres daquelas pernas musculadas e sorriram.

- Sem problema. Só fizemos o que farias por nós. Sabendo que isso seria, de todo, impossível.

- Muito obrigado, muito obrigado. A partir de hoje – estão todos a ouvir – estes gatos (como é mesmo o vosso nome?) – bingo e jasmim – são meus amigos, são nossos amigos.

Salvo o trovão, feitas as pazes, todos se viraram para a pom-pom que continuava sentada junto ao tronco da velha árvore.

Escusado será dizer que o olhar da comunidade canina e agora até dos seus primos, foi reprovador da sua atitude. Não se levantar para acudir um amigo, mesmo que não gostasse dele, como lhe tinha dito há minutos! Isto não era admissível.

E assim, sem um latido, sem um mínimo gesto do grupo, a pom-pom levantou-se, baixou a cabeça e desapareceu pelo caminhou que haveria de a levar até à sua mansão.

14.

Ainda estavam todos em estado de choque com o acontecido, pior o trovão que ainda se sentia meio fraco, quando o pulgas, o mais inconstante de todos os canídeos daquela comunidade, teve uma epifania.

- nortada, nortada!

- Diz, pulgas. O que foi agora. Não estou com paciência para mais nada, como deves imaginar.

- Chega aqui, tive uma ideia, mas queria saber a tua opinião.

- Uma ideia, tu. Hum…até já estou a tremer só de pensar no que vai sair dessa cabeça.

- Mas diz.

- O olhar.

- O olhar? Mas qual olhar!

- O olhar que fizemos à pom-pom resultou, não foi?

- Sim, e então.

- Foi um olhar reprovador, certo? Disse o pulgas.

- Sim. Foi um olhar do grupo sobre a atitude dela.

- Pois. Isso mesmo. O nosso olhar mudou tudo. Isto é, resolvemos o problema entre ela e o trovão.

- Sim. Mas o que queres dizer com essa palavra da epifania?

- Olha. Presta atenção. O Eduardo e a prima estão lá dentro ainda. Não sabemos o que se está a passar, nem sequer sabemos se está a acontecer alguma coisa, boa ou menos boa. Percebes?

- Não.

- Então, pensa comigo.

- É difícil.

- Escuta. Vamos todos à oficina. Tu chamas o pessoal, e quando lá chegarmos, sentamo-nos e olhamos para eles, mas com aquele olhar que só nós conseguimos fazer. Um olhar ternurento e de quem deseja, e muito, que eles se entendam.

- Achas que isso vai resultar, assim de uma forma tão simples?

- Tentar não custa. Rematou o pulgas.

O nortada nem pensou muito bem sobre a proposta do pulgas, mas perdido por um perdido por mil, chamou o pessoal, os gatos também, e explicou a ideia do pulgas.

Não será de estranhar que os restantes ficaram admirados com o facto de o nortada ceder a uma ideia do pulgas. Só o bingo e o jasmim é que ficaram indecisos sobre a sua colaboração naquela epifania do pulgas.

- jasmim, o melhor é ficarmos aqui sossegados. Isto são coisas deles. Eles que as resolvam. Disse o bingo.

- Não sei. Se calhar e como fazemos parte do grupo, como disse o trovão e não só, acho que devíamos ir com eles.

Ainda o bingo preparava a resposta e já o nortada os questionava. – Então não veem? Vamos embora, todos somos poucos para resolver este assunto de uma vez por todas.

- Estás a ver, disse o jasmim ao bingo com ar de que afinal ele também era um gato com muita personalidade e com ideias muito boas. Digamos que era um gato muito intuitivo.

- Ok, ok. Vamos lá. Escusas de estar com a cauda no ar, todo vaidoso.

 

15.

O nortada levantou-se e deu um passo na direção da porta da oficina, seguido de perto pelos outros canídeos.

Na oficina, o ambiente parecia pesado, o que fez com que todos se questionassem sobre o que estaria realmente a acontecer entre o Eduardo e a prima.

Ali estavam, sentados, com as cabeças baixas, como se as palavras se tivessem esgotado e apenas o olhar transmitisse o sentimento que nutriam um pelo outro, mas cuja aceitação seria, como sabiam, mal recebida pela família e pela comunidade.

Os canídeos, com o nortada e o pulgas a encabeçar o desfile, entraram e sentaram-se, observando o Eduardo e a prima com aquele olhar ternurento, apaziguador, do género “derrete corações”.

A prima foi a primeira a levantar a cabeça. Olhou para o Eduardo, e com um sorriso tímido, disse: - Olha, estão aqui todos os cães da aldeia!

O Eduardo, admirado, nem queria acreditar no que estava a ver e olhando para o nortada, perguntou-lhe o que se estava a passar.

- O nortada nem sabia como responder e virando-se para o pulgas, o que teve a ideia peregrina, sussurrou-lhe: - eu não te disse que não era boa ideia!

- Pensas tu, disse o pulgas. Eu trato do assunto.

- Sr. Eduardo, minha Senhora. Nós os canídeos da aldeia e já agora, mais os nossos recentes amigos bingo e jasmim, estamos aqui para vos pedir que olhem bem nos nossos olhos e que sintam o que os mesmos transmitem.

E continuou:

- Há muito tempo que aqui o meu amigo nortada se preocupa com o Sr. Eduardo e tudo tem feito para que a vida dele fosse mais completa, mais alegre, mais feliz. Naturalmente que o meu amigo nortada, que andava nesta angústia sozinho, pediu-nos ajuda.

Nós, amigos que somos uns dos outros, reunimos algumas vezes e decidimos tornar esta preocupação do nortada, numa preocupação colectiva e tentámos perceber como poderíamos ajudar o Sr. Eduardo e a Sr.ª a serem felizes e, naturalmente, unidos pelo amor que nutrem um pelo outro.

As palmas ecoaram na oficina e o pulgas já não sabia se era ele que estava a falar ou se algum canídeo iluminado que, quem sabe, o inspirou. Mas, voltando ao assunto.

- Assim, nós os canídeos da aldeia que agora estamos a olhar para vós, pedimos que leiam nos nossos olhos a vontade e a felicidade que essa vossa união nos traria, mas, em particular, a vós. E calou-se, sentando-se junto ao nortada.

O grupo continuou sentado e a olhar, sem pressa, sem fazer mais declarações, porque as palavras do pulgas calaram a boca a todos os outros e cimentaram a ideia de que, como diz o povo, “um olhar vale mais que mil palavras”.

O Eduardo olhou para a prima, que lhe retribuiu com uma doce e aprovativa expressão. Agora nada poderia andar para trás. Agora, com um simples olhar, tudo se clarificou. Eram finalmente namorados, esquecendo que o que outros pensam sobre as nossas decisões são coisas que não podemos controlar e que por isso mesmo, devem escapar às nossas preocupações.

- Obrigado. Disse o Eduardo aos canídeos, enquanto olhava para o nortada com um olhar de quem sempre soube que o seu antigo companheiro andava a preparar alguma. Aqui estava a resposta.

Ninguém respondeu ao Eduardo.

Calmamente levantaram-se e começaram a sair da oficina, cada um com seus próprios pensamentos, mas com a sensação de que tinham conseguido algo de muito importante.  O nortada, feliz como nunca, sorriu para si mesmo, sabendo que o gesto de empatia tinha sido mais do que suficiente.

Agora iam à casa da pom-pom fazer o mesmo olhar porque, na verdade, a pom-pom era parte do grupo e apesar de tudo, não poderiam excluí-la, mas aceitá-la como sempre a conheceram.

Só assim, poderiam a ser um grupo de amigos, companheiros sem tempo, numa jornada que estava, apenas e só, dependente da duração da vida de cada um.

Nessa noite, todos se juntaram na casa da pom-pom e pela primeira vez na sua vida, o marreco não dormiu na sua casa. O Eduardo e a prima eram agora um casal feliz e ele tinha tempo, todo o tempo do seu mundo, para continuar a fazer parte da vida do Eduardo e não se importava nada que o tempo andasse devagar. Por ele, podia até parar e cristalizar aquele momento.

 

Fim

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