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EDUARDO, o homem e o seu tempo - Parte II

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6.

O sol já tinha despontado e com ele o nortada e o Eduardo.

Sentiam uma leve brisa, sinal de que a sensação de calor poderia ser menor do que a de ontem.

O nortada levantou-se e caminhou direitinho aos seus recipientes onde a água e a comida o aguardavam.

Hoje tinha de comer bem para levar a cabo a grande aventura; a assembleia.

Ia ser um dia complicado, até porque não estava certo se conseguiria congregar o “pessoal”. Mas isso logo se via. Para já tinha de comer, beber muito e depois meter-se ao caminho.

O Eduardo, sem desconfiar nada do que o nortada estava a congeminar, também se levantou, tomou o seu parco e habitual pequeno-almoço e saíram os dois na direcção da oficina.

O nortada já tinha pensado como iria fazer. Nada de fugas, nem surpresas para o dono. Tinha de convocar a assembleia para junto da oficina. Assim o dono não desconfiava e muito menos perceberia o que eles estariam a falar.

O problema é que não sabia como dar a volta às casas, cabanas e quintais onde se encontra o “pessoal”. Isso é que era um problema.

No caminho para a oficina o Eduardo fez a habitual paragem na mercearia e qual não foi o seu espanto que a prima, a sua sensacional e inquietadora prima, estava lá!

O nortada pensava alto – boa, talvez tenha a oportunidade de sair daqui sem ele dar por nada.

Ficava cego quando via a prima e o nortada sabia disso.

Quanto mais depressa pensou, mais depressa aconteceu.

Entre cumprimentos casuais e palavras afogadas, o Eduardo lá foi mantendo “a conversa” com a prima.

- Olá, bom dia, como estás?

-Bem, e tu?

- Também estou bem. Este calor é que me faz mal. Não é bem o calor é mais o pó das malditas árvores e a rinite alérgica que não me larga.

- Pois, respondeu a prima.

Esta coisa do “pois” é sempre mau sinal, parece que é o fim de uma conversa que não se teve e não se pretende que continue.

- Então, mas não vais hoje ao rio – perguntou o Eduardo.

-Não. Tenho coisas para fazer em casa.

Bom, a conversa não estava a ter qualquer interesse e por tal facto não valia a pena gastar letras, palavras e papel a reproduzi-la aqui. Aquilo era sempre assim, sem qualquer interesse. Se um dizia mata o outro dizia esfola, na indecisão, claro.

Ainda assim, lá ficaram o tempo suficiente para o nortada se esgueirar e conseguir, através da passa ladradela, convocar todos os canídeos para a assembleia.

Chegou à oficina ainda antes do Eduardo e isso foi muito bom porque desarmava o dono para qualquer pergunta que este lhe fizesse sobre o seu desaparecimento. A resposta estava na ponta comprida da língua – estava com calor e vim para me sentar à sombra! Melhor que isto…era dificilíssimo. Esperto, o nortada.

-O pessoal estava todo sentado à volta do nortada, tudo à sombra. Uns com mais sono, outros com menos, mas estava lá a maioria.

O nortada chamou o pulgas e o negrão para junto de si. Assim eram três. Ele o autoproclamado presidente e os outros os secretários.

Ninguém levantou objecções à disposição da assembleia.

Estava na hora de começar a oratória e o problema é que não sabia como fazê-lo.

Assim como assim, ia usar uma frase que o Eduardo dizia muitas vezes – era assim como um tique de linguagem, mal não haveria de parecer. E começou.

- Caríssimos amigos e amigas. Em primeiro lugar devo dizer o quanto estou satisfeito por terem acedido ao meu convite.

- Gostaria de agradecer a todos os que me ajudaram a convocar esta assembleia. 

A coisa não parecia estar a correr mal.

Uns deitados à esquerda, outros ao centro e os restantes à direita. Só o trovão, o raio do boxer, é que não deixava a pintarolas por nada deste mundo e sentou-se mesmo juntinho a ela.

- Enfim, todos sabem o que se passa com o Eduardo. Todos vós já deveis ter percebido que ele não anda bem, mas apesar de sermos canídeos podemos, e devemos, ajudar o meu dono assim como amanhã poderemos ter de ajudar um outro dono qualquer.

O “pessoal” olhou-o pela primeira vez com a atenção que ele pretendia.

O nortada sabia que para atingir os seus objectivos tinha de ser assertivo. Tinha de chegar aos corações de todos, sem excepção.

- Amigos, como sabem eu gosto muito de todos vós, esforço-me por me relacionar com todos, apaziguar mal-entendidos…enfim, tudo pela nossa comunidade canídea.

- O que pretendo de vós, nem sei como, é que consigam sensibilizar os vossos donos para o grande amor que existe entre duas pessoas, o Eduardo e a sua prima e que eles, aqui e acolá, nos possam ajudar a desembrulhar este problema que afecta aquelas duas cabeças ocas.

- Mas ó marra, como queres tu fazer isso, interpelou o trovão.

Aquilo parecia um desafio, mas o nortada não iria dar-se por vencido à primeira, nem pensar.

-Trovão, tens de pensar. Pensa lá um bocadinho, se faz favor, mas pensa mesmo (estava a chamar-lhe burro, sem ofensa para os mesmos).

- Pensa que um dia podes vir a necessitar de alguma ajuda em alguma coisa na tua vida.

-Eu não preciso de nada e o que quero está aqui ao meu lado.

A pintarolas até estremeceu.

Sentiu-se mal no meio daquela boca maçadora. – Que convencido, este!

- Até parece, trovão. Até parece que isto aqui está para alugar! Não tens mesmo tacto nenhum, possa!

A coisa estava a descambar e o nortada apenas podia segurar aquilo de uma forma, falando ainda mais baixo, mais pausadamente.

Está provado que quanto mais baixo falamos mais as pessoas se esforçam por nos ouvir.

- Tenham calma. Não vale a pena estarem a aborrecer-se.

- Vamos lá a ter calma e ouçam-me.

Ia começar a argumentação e a auscultação das várias opiniões que normalmente acontecem.

7.

Pensava o nortada que sabia tudo da vida de Eduardo. Não poderia estar mais enganado.

O Eduardo é, como todos nós, um produto do passado. O resultado de uma vivência feita de momentos bons e maus, de uma educação, de um enquadramento social que, naqueles tempos, era conquistado na rua e não por detrás das redes sociais.

O Eduardo teve uma infância, digamos, normal, sem grandes sobressaltos, mas plena de problemas de saúde, pelo menos até aos 14 anos.

Nasceu numa pequena casa, bem no centro da aldeia, que os seus pais alugavam no Inverno, mas tinham de a entregar no Verão. Para ele seria sempre algo estranho, as mudanças.

Durante o Verão iam viver para uma antiga cocheira com divisões feitas com cortinados e onde a água era bebida de um cântaro, posto que não havia água canalizada na cocheira.

Os banhos eram dados pela mãe, numa bacia e ao toque de pequenos baldes de água. Mas era feliz, adorava viver em quintais, onde existia sempre alguém ao lado. Mal sabia que anos mais tarde ia sentir falta dessas pessoas que o rodeavam, desses quintais, dos pátios e das estreitas ruas cheias de gente.

Nasceu em casa, como já foi dito, com cerca de cinco quilos. Era um “latagão”, disse-lhe a mãe anos depois.

Mas, passado um mês de vida, emagreceu ao ponto de ser submetido a uma operação no Hospital da Estefânia. Tinha o duodeno fechado e, por tal má formação, o comer não descia, subia e vomitava tudo o que lhe davam a comer, entenda-se leite do seio da mãe.

Naturalmente que não se recorda de nada, com um mês e meio como o poderia saber. Foi a mãe que lhe contou anos mais tarde. Resta apenas uma cicatriz no lado esquerdo do abdómen que, pensa ele, com o crescimento foi descendo para um lugar diferente do original.

Anos mais tarde, apenas com cinco anos lá apanhou uma Meningite. Lembra-se de pequenos momentos, como estar em casa num quarto sem luz alguma, sem almofadas, e das enormes agulhas das injecções de penicilina que o enfermeiro ia administrar.

À conta dessa doença, a mãe obriga-me a usar um boné para se proteger do sol. Ao longo da vida, até a mãe falecer foi diária a preocupação, dizendo, até, “não podes apanhar sol”, “tu és como vento, mudas de humor com muita facilidade”, efeitos da meningite, dizia ela. Preocupações de uma mãe.

Depois veio o “pé chato” e as botas ortopédicas. Pesadas e pouco maleáveis, mais parecia um “pé de chumbo” que por ali andava. Um médico disse à minha mãe que o melhor seria caminhar na praia. E foi assim que começou, desde muito novo, a frequentar a praia e fez da mesma o seu local de eleição, fosse Verão, fosse Inverno. Era, e é, um maluco pelo mar, por pisar a areia e pelo sol.

Portanto, e ainda a viagem vai a meio, o Eduardo começou desta forma a sua presença no planeta Terra. Passados uns anos, as coisas mudaram por completo.

8.

E foi assim que o Eduardo se transformou numa pessoa solitária, descrente do positivismo que inunda as mentes contemporâneas e, por conseguinte, dependente de carinho, de afago, de amor.

Por tudo isso, a prima era a pessoa que mais apreciava, a única pessoa que lhe permitia continuar ligado a esse passado que o amarrava, mas, por outro lado, o fazia sentir seguro. Dualidades da vida.

Durante esses longos anos, após a morte dos pais, viveu só, “amarrado” à sua casa e ao caminho que o levava ao outro porto seguro, a oficina.

Foi numa dessas viagens de bicicleta, a velha bicicleta, que encontrou o nortada.

Estava abandonado, assim lhe pareceu, e resolveu parar. A simbiose foi imediata: o nortada dirigiu-se ao Eduardo com os olhos semicerrados, pé-ante-pé, com a cabeça e a cauda em baixo, sinal de aceitação.

O Eduardo passou a mão pelo corpo do nortada e sentiu que aquele era um momento diferente, tal como o nortada notou.

Desde esse dia que não mais se separaram. Mas o nortada nada sabia do passado do Eduardo, como se sabe.

Talvez por isso, o nortada, em jeito de gratidão, tudo fizesse para ajudar quem o salvou.

E foi por esse acaso da vida, por esse infortúnio de duas vidas solitárias, que dois seres se juntaram e até aos dias de hoje vivem em companhia, mais que amizade, mais que compaixão, simples dependência saudável entre o Homem e o Canídeo.

Explicada que está, em jeito muito breve, o encontro de duas “almas” perdidas, seguir-se-á a continuidade da assembleia dos canídeos para tentar resolver o problema do Eduardo.

Não será fácil a discussão, posto que o problema é complexo.

9.

- Pessoal. Calma.

- Não vale a pena estarem a aborrecer-se. Vamos lá ter calma e ouçam--me.

- Ó nortada, interrompe a pintarolas, ou este indivíduo se afasta de mim, deixa-me respirar, ou vou-me embora. Já que convocaste a assembleia, impõe o respeito, senão sou eu que vou para o teu lugar!

O nortada, assim como o trovão, ficou petrificado perante a atitude da pintarolas. Nem um único som saiu daquelas bocas, nada. Limitou-se, o nortada, a pedir ao trovão que viesse um pouco mais para a frente, algo que lhe viria a sair bem caro.

- Bom, voltando ao assunto.

- A ideia é que todos nós façamos esse esforço. E tu pintarolas, já que gostas tanto de falar – o quanto lhe custou dizer aquilo – podes aproveitar e falar com o teu dono para, sem ninguém dar por nada, fazer a coisa por forma a que o Eduardo e a prima se encontrem mais vezes na mercearia.

- E como queres que consiga fazer isso, diz lá?!

- Então, basta que o teu dono retarde – melhor - venda o pão numa hora, entre a madrugada da prima e a manhã do Eduardo.

- O pão, para eles, é o “elo” na mercearia. Quanto ao café, como a prima não bebe, não me parece que seja importante, a menos que o teu dono comece a servir sopas de café, o que não seria de descartar, mesmo para o negócio.

Perante tal afronta a pintarolas não se conteve.

- Olha lá ó nortada, mas tu agora também percebes de restauração? Não achas que estás a ir um pouco além dos teus conhecimentos? O meu dono sabe, muito bem, o que faz. No entanto, e tendo em conta o bom coração que tenho vou tentar, mas apenas pelo Eduardo e pela prima, não por ti, entendes?

O trovão perdido nos seus pensamentos. – Dois-pontos pontos para mim, nada para o nortada.

O pulgas e o negrão acharam que era altura de acalmar a pintarolas e, ao mesmo tempo, ajudar o seu amigo que estava desamparado, no meio de tanta conversa e maior confusão.

- Ó pintarolas, tem lá calma contigo, olha que somos todos amigos ou, se quiseres, pelo menos, conhecidos, aqui na freguesia. Não te enerves. O nortada tem alguma razão naquilo que pretende, apenas não sabe dizer as palavras certas.

Estava a discussão acesa, quando entra na assembleia a pom-pom. Toda ela era charme. Branca como a cal, de patas arranjadas, pernas depiladas e andar altivo, assim como o focinho.

- O trovão até se babou, tal o estado miserável daquele coração que parecia querer sair do peito e estatelar-se no chão.

Toda a assembleia parou para olhar aquela personagem que parecia sair de uma tela de cinema ou teatro, sabiam lá eles.

Era a pom-pom, cuja dona era uma ex-emigrante portuguesa, como tantos outros.

Ao final de trinta anos a trabalhar fora de Portugal voltou à sua terra e ali se encontrou com o seu passado, com as suas origens.

- Queira juntar-se a nós, por favor, disse o nortada.

A pom-pom, baixando a cabeça, como que agradecendo a atenção, foi sentar-se junto do negrão e do pulgas.

No fundo foi para o lado do nortada assumindo um lugar de chefia.

O negrão passou-se por completo.

- Mas o que é isto? Afinal quem é esse monte de pêlo branco que chegou agora e já quer ser secretária da assembleia?

- nortada, ou metes ordem nisto ou vamos todos embora.

O nortada já nem sabia para quem se virar e nem o que dizer. Ainda assim, lá lhe deu um brilho na mente e virando-se para o pulgas, - podes dizer à pom-pom para se sentar ali à frente de nós.

O pulgas variou. Todos conheciam os assomos dele quando ficava fora de si.

- Ó nortada, tás tonto ó quê? Achas que eu quero saber disso para alguma coisa. Quero que tu, o Eduardo, a pom-pom e esta tua assembleia se lixem.

- Olha, vou-me embora.

E foi...

 

(Continua)

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