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Reflexão sobre a solidão

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A solidão não é só a ausência de companhia.

É, também, a presença crua de tudo o que fui obrigado a "calar".

É o espelho que não perdoa.

O silêncio que já não me consegue enganar.

É o lugar onde me encontro depois de ter sido abandonado por tudo ou por todos.

Há uma solidão que dói mais do que a falta do outro,

É a solidão de estar comigo e não saber o que fazer com a mesma.

É olhar para dentro e não reconhecer a casa onde habito, como se a minha alma tivesse envelhecido antes do corpo.

Como se tivesse deixado partes de mim pelo caminho e agora andasse a tentar dar sentido a um puzzle onde não existem as peças que faltam.

Lembro-me daquela criança que fui.

Tímida, de olhos pequenos, não grandes porque isso todos dizem que têm, mas de coração cheio.

Sozinha muitas vezes. Mas nunca vazia.

Porque nesse tempo a solidão era normal, pelo menos para mim,

Mas eu tinha, digamos, o dom de criar castelos imaginários.

Brincava com o vento e falava com as pedras da calçada, como se fossem os meus avós, que nunca conheci.

A criança, a minha criança interior, afinal nunca soube estar só.

Era, antes, "decapitada" de existência.

Onde o mundo era demasiado pequeno.

Hoje olho em volta e vejo tanta gente no meio da multidão, e tão irremediavelmente sós.

Vidas cheias de agenda, de barulho, de sorrisos que escondem outras solidões.


Mas, quando a noite chega, e as luzes se apagam, ouve-se o eco.


Um eco que vem de um quarto fechado há anos.


Uma voz antiga que chama por mim pelo nome que já ninguém usa.


E dói, meus amigos.


Porque sei, no mais fundo de mim, que não é o mundo que me falta.


Sou eu que falto a mim mesmo.


Por isso, o regresso a casa, à minha criança interior, é tão complexo.


Porque, na verdade, cuidar da criança que ficou esquecida dentro de mim, aguarda, ainda, aquele abraço que nunca aconteceu.


Mas, por vezes, é a solidão o único caminho de regresso.


E retorno ao lugar onde aprendi a escutar o que se cala.


A essa parte de mim que não requer "likes" nem "validação".


Que não quer aplausos nem vitórias, mas presença, verdade, paz.


Acredito, ainda sssim, que a humildade de escutar permite que se curem as dores que não se curam com respostas, mas com o decurso do tempo, com o silêncio.


E talvez, talvez, consiga descobrir que a solidão nunca foi minha inimiga.


Que sempre soube o caminho de volta.


Apenas, imaginem, tinha-me esquecido onde ficava a entrada da minha "casa".


A todos os que sofrem de solidão. Vão em frente e enfrentem.


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Desenho: @B.S.D. - 2003 (Um pseudónimo)

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