Tenho uma relação séria e duradoura com o candeeiro da minha rua. À primeira vista pode parecer uma afirmação insólita, talvez até absurda, mas há, entre nós, um entendimento silencioso que ultrapassa a mera funcionalidade. Ele oferece-me luz e eu ofereço o propósito de “ser”. Na sua presença o caminho torna-se visível. Não apenas o caminho físico que percorro, mas também aquele que se insinua dentro de mim sempre que a noite cai e o mundo se recolhe. Sem a sua luz seria mais difícil distinguir o real do imaginário. Sem o meu olhar talvez a sua existência passasse despercebida, como tantas outras presenças mudas que nos rodeiam. Vivemos uma espécie de pacto discreto: ele ilumina-me e eu reconheço-lhe o valor. Quando, por vezes, se apaga - porque até a luz mais constante acaba por soçobrar ao tempo - sou eu quem lhe devolve a chama, substituindo a lâmpada com o cuidado de quem trata de um velho amigo. Neste gesto simples reside uma verdade maior: nada existe por ...
Reflexões a esmo