Hoje não me apetece dizer nada. Talvez por andar cansado — cansado de tanta informação, de tanto ruído, de tanto ruído disfarçado de informação.
Eleições, partidos, candidatos, sondagens, debates, promessas, ziguezagues.
Pretende-se, sempre, ocupar o tempo e o pensamento. Mas, no fundo, ficamos na mesma, orgulhosamente à espera que as coisas mudem. Que os interesses desapareçam, que o Povo seja, enfim, reconhecido como a força motriz de um país adiado.
No domingo lá estaremos, como sempre, a cumprir o ritual: votar, entregar o nosso boletim, esse famoso pedaço de papel que, em teoria e na prática, define destinos.
Um simples papel, com quadradinhos, onde se escreve um “X”, apenas num.
Como é que algo tão pequeno pode decidir tanto?
Como pode a inscrição de uma cruz mudar a vida de tanta gente?
Talvez não mude. Talvez não chegue. Talvez apenas nos iluda, mais uma vez.
Uns votam por convicção, outros por dever, outros ainda por medo do que possa acontecer se não o fizer.
Votamos porque é o que se espera de nós.
Votamos porque desistir seria aceitar e mesmo exaustos, existe em cada um de nós qualquer coisa que resiste, talvez orgulho, talvez memória, talvez apenas um último resto de sonho mal resolvido.
Depois a rotina instala-se, os rostos mudam pouco, os interesses mantêm-se, a confiança dissolve-se, e o povo — esse mesmo povo que carrega o país às costas — é rapidamente remetido ao papel de espectador. De figurante.
Fala-se do voto como arma democrática. Mas que valor tem uma arma se o alvo nunca muda de lugar?
No fim de contas, talvez o mais importante não seja acreditar que um “X” muda tudo.
Mas, acredito eu, o mais importante, e fundamental, é continuar a exigir, a questionar, a pensar que nunca estamos certos, que nunca estamos seguros.
E por isso, mesmo sem ânimo, mesmo sem certezas, mesmo sem vontade de dizer mais nada, lá estaremos.
Com o papel na mão.
Com a cruz desenhada.
A resistir.
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