
Nota prévia:
Estes textos andam por aqui desde 31/05/2010, pelo menos é o que diz nos "Detalhes" do ficheiro.
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Caro Desconhecido,
Espero que, depois da nossa última conversa, te sintas melhor do que eu.
Estavas mal, lembro-me bem — das tuas agruras, das tuas tristezas, das tuas ansiedades, enfim, de tudo o que te faz sentir revoltado com a vida.
Eu cá vou indo, ou antes, não vou.
Sinto, a cada dia que passa, que não consigo almejar aquilo que mais quero: paz. Porque a saúde, essa, já há uns anos que me vai protegendo, tirando aquela situação que te contei, já lá vão três anos.
Agora sinto que estou novamente numa fase má da minha vida. Estou revoltado e, por estranho que pareça, não é nada que tenha a ver directamente comigo.
Parece estranho, não é, caro amigo? Mas é verdade.
Revolta-me tanta falta de sinceridade, tanta falta de responsabilidade, tanta jogada de bastidores, tanta promiscuidade.
Mas, como já referi, não é nada comigo. Mas dói-me. Sinto-me mal, sinto que necessito de sair, de tomar outro rumo. Mas como?
Não sei. Tenho tentado, dado voltas à cabeça, mas a coisa não está fácil. Apenas sinto que o meu coração vive inquieto, que a minha calma está a definhar, que eu não sou aquele que fui durante alguns anos da minha vida.
Podes pensar:
Este tipo tem uma vida estável, segura, sem grandes preocupações do dia a dia, entre outras coisas.
É verdade tudo o que dizes, assumo isso, mas preocupa-me o facto de não conseguir gerir as minhas emoções.
As coisas são o que são e como são. Não é fácil conviver com tanta “hipocrisia”.
Mas afinal, o que te estou a dizer? Que direito tenho de te chatear com estas coisas?
A verdade é que, se não fores tu, meu amigo Desconhecido, não tenho mais ninguém em quem confiar, com quem falar, com quem abrir o meu coração, com quem desabafar. Um homem precisa de desabafar, não concordas?
Apesar de tudo, sei que tenho de pensar de outra forma, que tenho de interiorizar apenas aquilo que me diz respeito: a minha família e as minhas coisas — entenda-se, os meus hobbies.
Olha, estava a esquecer-me de te dizer que entreguei hoje a minha dissertação de mestrado. Finalmente! Foi um ano cheio de preocupações, mas gostei. Acho que, se não fosse aquele desafio, não teria aguentado.
Sabes que acho que por agora não ter nada para fazer é que este sentimento de revolta está a vir ao de cima. Acho isso, sinceramente.
Mas já estive a pensar cá com os meus botões: agora tenho tempo para escrever coisas que há muito tenho adiado, precisamente por causa da dissertação.
Acho que vou fazer isso, o que achas?
Penso que devo andar mentalmente ocupado, pois só assim consigo manter a mente sã e os meus pensamentos focados em algo positivo.
Por outro lado, o confronto diário com certas situações aborrece-me, chateia-me, e não gostava de continuar assim por muito tempo. Gostava de mudar. Como sabes, as coisas não estão fáceis, antes pelo contrário.
Bom, meu amigo Desconhecido, já me sinto um pouco aliviado só de te escrever estas palavras e de saber que as vais ler.
Já me conforta esse facto. A vida é o que é, e temos de tirar dela o maior partido que pudermos.
O problema é que este pensamento deveria reger-me 24 horas por dia, mas não.
Despeço-me com muita amizade, esperando receber notícias tuas a qualquer momento.
Um abraço deste teu amigo,
Inadaptado
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Caro Desconhecido,
Não desminto que fiquei surpreendido com a rapidez da tua resposta e com as tuas palavras.
Sério, fiquei muito satisfeito por saber que as coisas estão a correr bem contigo.
Que bom! Gosto de saber que estás bem; só assim me podes ajudar sempre que posso.
Como gostava de estar no teu lugar: novos desafios, novos ambientes, novas pessoas. É claro que a fase de adaptação não é fácil, como tu próprio referes, mas isso passa.
Sabes que nós, portugueses, somos desconfiados — sempre fomos —, mas depois de conquistarmos o nosso lugar na comunidade, as coisas mudam.
Desejo que isso aconteça com a rapidez que terá de acontecer, sem pressas.
Eu cá vou levando a vida.
Aproximamo-nos do Verão a passos largos, e aqui o Verão rima com confusão, e tu sabes o quanto eu não gosto da confusão.
O que me vale é o meu refúgio: a minha casa, ao final do dia. É o que me vale.
Mas tem-se passado, e este ano vai ser o mesmo. E com a crise, se calhar até vem menos gente, quem sabe.
Olha, não tenho assim muitas novidades, a não ser algumas coisas da política local, que não sendo importantes, são no mínimo estranhas.
Imagina tu, meu amigo, que o líder da nossa terra, ao fim de muitos anos, resolveu convidar o grupo da oposição para governar com ele. Então, e não é que aceitaram?
Enfim, vá-se lá entender estas mudanças de posição.
Mas isso também não conta para nada.
Nós, que somos do povo, temos de nos contentar com a nossa vida e contribuir para o nosso bem-estar. Sabes que acho que a melhor forma de o fazer é afastarmo-nos destas guerrilhas políticas.
Tirando isso, nada mais tenho a dizer-te hoje. Tenho ainda de preparar uma actividade para amanhã.
Acho que vou apresentar algo sobre a evolução da arquitectura ao longo dos tempos. Acho interessante e devem gostar.
Depois conto-te.
Um abraço deste teu amigo,
Inadaptado
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Olá, caro amigo Desconhecido,
Não te tenho escrito, não por não me dar vontade, mas porque tenho andado um pouco ocupado com a vida, no fundo, como todos nós.
Hoje foi o dia do meu 45º aniversário — mais um na contabilidade desta passagem pela vida terrena.
Foi um dia normal, como todos os outros. Passei o fim de tarde e a noite na companhia dos meus melhores e únicos amigos: a minha mulher e os meus filhos.
Recebi alguns telefonemas de parabéns, pelo menos daquelas pessoas que não se esqueceram de mim.
Apesar disso, continuo um pouco indeciso sobre uma situação pessoal.
Mas hoje não quero falar nisso, porque hoje, que já foi ontem, foi o meu aniversário, e não quero falar de outras coisas que não sejam a minha hora e o dia de vinda a este mundo, que, não tendo sido mau, também me tem reservado algumas agruras.
Mas também não quero falar nisso.
Pensando bem, não quero falar de nada.
Acho que vou ler um pouco e depois vou deitar-me, esperando que amanhã possa oferecer à minha família aquilo que não lhes ofereci hoje: um jantar.
Um abraço deste teu amigo,
Inadaptado
(Continua)
*Desenho de B.S.D. (2003)
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