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Mensagens

Na obscuridade

Hoje a escrita não me sai. As mãos não se movem, A tinta não escorre da caneta e o papel não existe. Raspo, em sinal de desespero, A velha mesa de madeira com a ponta da navalha. E, aos poucos, vão nascendo figuras geométricas entrelaçadas, Como num desenho abstrato que nunca será. Pouco mais consigo perceber, ouvir ou ver, A não ser a pálida e intermitente luz da vela, Que treme sobre a superfície gasta da velha mesa.

EDUARDO, o homem e o seu tempo - Parte III

10. Ao sair, não deixou de dizer, em alta voz aos restantes. Impugnem isto, façam-no em defesa da honra. Isto é uma vergonha. O nortada ao ouvir tal palavra, advertiu o amigo e secretário que tal palavra não era bem-vinda na assembleia, visto que esta representava a comunidade canina. O pulgas , para não se chatear, rematou: - A comunidade canina? Mas qual comunidade canina? A comunidade canina está toda aqui, por acaso? Vê mas é se acabas com esta palhaça. Eu já nem quero ouvir falar mais de namoros e casamentos entre humanos. Naturalmente que o nortada e, principalmente, o negrão perceberam a atitude do pulgas . Os outros nem por isso, a não ser do seu já mencionado mau feitio. Mas, de todos, o que ficou mais satisfeito foi o trovão , – a pom-pom já não me escapa, pensou. A saída do pulgas e a entrada da pom-pom retiraram qualquer hipótese de continuidade da assembleia. Era notório o desagrado, o tempo perdido e o desinteresse pelo problema do dono do nortada . A única c...

EDUARDO, o homem e o seu tempo - Parte II

6. O sol já tinha despontado e com ele o nortada e o Eduardo. Sentiam uma leve brisa, sinal de que a sensação de calor poderia ser menor do que a de ontem. O nortada levantou-se e caminhou direitinho aos seus recipientes onde a água e a comida o aguardavam. Hoje tinha de comer bem para levar a cabo a grande aventura; a assembleia. Ia ser um dia complicado, até porque não estava certo se conseguiria congregar o “pessoal”. Mas isso logo se via. Para já tinha de comer, beber muito e depois meter-se ao caminho. O Eduardo, sem desconfiar nada do que o nortada estava a congeminar, também se levantou, tomou o seu parco e habitual pequeno-almoço e saíram os dois na direcção da oficina. O nortada já tinha pensado como iria fazer. Nada de fugas, nem surpresas para o dono. Tinha de convocar a assembleia para junto da oficina. Assim o dono não desconfiava e muito menos perceberia o que eles estariam a falar. O problema é que não sabia como dar a volta às casas, cabanas e quintais onde...

EDUARDO, o homem e o seu tempo - Parte I

1. O tempo - dizia o outro - corre devagar, muito devagar, assim como se entre um segundo e o outro segundo existissem vários momentos de paragem. Se calhar tinha, ou tem, razão. A verdade é que o Eduardo não tinha tempo. Não sabia, há muito tempo, o que era olhar despreocupadamente para a linha do horizonte, não sabia que, apesar de todo o rebuliço que lhe ia na cabeça, a vida não pára, o tempo não espera e que a sua angústia diária apenas o levava a um vazio no tempo, um limbo, um espaço oco, anti material, nada mais. Mas não sabia, não pensava nesse “tempo” nem por um segundo. Interessavam-lhe mais os objectos metálicos que tinha na sua oficina, as rodas, os pneus, os carros dos clientes com o óleo para mudar. Máquinas de um tempo que não conhecia, mas que tinha de arranjar, assim sem saber quais os momentos que cada uma tinha. Achava que um carro era, talvez com razão, o testemunho de uma vida, a vida de quem o conduzia e, assim como se fosse um cientista do tempo, tinha a ab...