1. O tempo - dizia o outro - corre devagar, muito devagar, assim como se entre um segundo e o outro segundo existissem vários momentos de paragem. Se calhar tinha, ou tem, razão. A verdade é que o Eduardo não tinha tempo. Não sabia, há muito tempo, o que era olhar despreocupadamente para a linha do horizonte, não sabia que, apesar de todo o rebuliço que lhe ia na cabeça, a vida não pára, o tempo não espera e que a sua angústia diária apenas o levava a um vazio no tempo, um limbo, um espaço oco, anti material, nada mais. Mas não sabia, não pensava nesse “tempo” nem por um segundo. Interessavam-lhe mais os objectos metálicos que tinha na sua oficina, as rodas, os pneus, os carros dos clientes com o óleo para mudar. Máquinas de um tempo que não conhecia, mas que tinha de arranjar, assim sem saber quais os momentos que cada uma tinha. Achava que um carro era, talvez com razão, o testemunho de uma vida, a vida de quem o conduzia e, assim como se fosse um cientista do tempo, tinha a ab...