
O confronto entre os Anjos e a humorista Joana Marques tornou-se num tema diário, colocando em debate questões de direitos de imagem, liberdade de expressão e o papel da crítica social, o que se estranha numa dita e aclamada democracia!
Naturalmente que refleti bastante sobre como o humor, particularmente o humor mais "apurado", continua a ser uma forma poderosa de questionar a sociedade, mas também como as reações a esse humor mudaram com o tempo.
A verdade é que as "cegadas", uma forma tradicional de crítica social, estão muito presentes na nossa cultura, mesmo que, muitas vezes, não o reconheçamos. E é curioso como uma piada, aparentemente simples, sobre a carreira dos Anjos se tornou num campo de batalha, com acusações de violação de direitos de imagem e até pedidos de uma indemnização que lhes dava para viver o resto das suas vidas no bem-bom (não brinquem comigo)! Tudo porque, para alguns, o limite entre uma crítica jocosa e uma ofensa pessoal pode ser ténue.
É interessante ver como a Joana Marques - e nem sou grande fã da mesma - com o seu estilo ácido e irónico, usou uma situação menos feliz dos Anjos, na interpretação do Hino Nacional. E o que aconteceu? Claro que foi uma reação em cadeia, ainda mais com esta coisa das redes sociais, eu só conheço as redes de pesca.
Os Anjos, que se encontram num momento de menor exposição, não aceitaram, digo eu, de bom grado a crítica. Ao contrário de outras situações, onde o humor pode servir para catapultar a carreira de alguém, no caso deles, a crítica parece ter tocado num ponto sensível, gerando uma resposta em forma de ameaça. Mas será que não terá catapultado nas tais redes sociais?
Se recuarmos no tempo - mais coisa menos coisa, cerca de seis séculos - percebemos que a dinâmica da crítica e resposta é, de certa forma, intemporal. Gil Vicente, no século XV, já usava o termo "cegada" como uma forma de expor, e questionar, comportamentos sociais e figuras de autoridade, muitas vezes de forma exagerada e irónica.
E se, à época, a "cegada" acontecia nas peças teatrais, hoje ela é uma presença obrigatória em algumas localidades deste Portugal, durante o período de Carnaval.
E como fiquei confuso, a minha grande questão é:
1- Até que ponto, na actualidade, podemos continuar a chamar de "cegada" ao que hoje parece ser uma ofensa pública?
2- O humor, essa ferramenta tão poderosa para fazer as pessoas reflectirem sobre si mesmas e sobre a sociedade que as rodeia, tem de se adaptar aos tempos modernos?
3- As redes sociais permitem que uma piada se torne viral em segundos, mas as reações também são rápidas, muitas vezes extremas e pouco ponderadas. Não existe forma de quantificar os danos morais que acontecem nas redes sociais.
4- Uma piada pode ser um acto de crítica e reflexão, mas também pode facilmente ser mal interpretada, especialmente quando se toca em questões pessoais ou sensíveis. Claro que sim, mas não parece que se aplique ao tema agora em causa.
Concluíndo:
No caso dos Anjos, fica no ar a dúvida sobre se a exposição pública que a crítica lhes proporcionou foi positiva ou negativa. O que me parece é que, no atual contexto, os artistas que estão fora do radar da comunicação social acabam por depender cada vez mais de visibilidade, mesmo que ela venha de uma forma negativa.
Neste sentido, a provocação ou a cegada têm o poder de fazer alguém ser visto, mas será que esse tipo de visibilidade vale a pena se ela for acompanhada de prejuízos pessoais ou de imagem? Será que as redes sociais ajudam ou prejudicam neste jogo?
A resposta a essas perguntas parece depender de como cada artista ou figura pública encara a liberdade de expressão. Joana Marques talvez tenha visto a sua piada como uma simples forma de humor, uma maneira de expor uma falha ou incoerência. Mas para os Anjos, a piada soou como uma agressão. Esse contraste é o que torna a crítica pública, nos tempos de hoje, tão delicada: o limite entre a provocação e a ofensa pode ser muito difuso, e o impacto pode ser imediato e incomodativo.
Posto isto, e na minha opinião, o caso entre os Anjos e Joana Marques servirá para reter que a liberdade de expressão e a ofensa pessoal caminham lado a lado na actualidade.
Os tempos mudaram, mas a necessidade de questionar a sociedade e as suas figuras públicas, através do humor e da crítica, permanece. Só não sei até que ponto essa linha se manterá, num mundo onde a visibilidade é um bem tão precioso e a resposta a essa exposição pode ser benéfica ou o contrário.
Por fim, nem vale a pena mencionar as relevantes declarações de Ricardo Araújo Pereira, pois não? Disse, em pouco tempo, o que muitos levam vidas para dizer!!!!!
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