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O velho tronco

  O velho tronco, agora nos seus últimos tempos de existência, não parece resistir às forças que a natureza lhe impôs. O seu interior, outrora sólido e forte, começa a decompor-se, dia após dia, mês após mês, ano após ano. O velho tronco permanece ali, isolado entre as construções e o passeio por onde passo todas as noites na minha caminhada, não como um pedaço de madeira morta, mas como um símbolo de resistência e renovação

A Espera

Sentado num banco de jardim, Deixo os minutos correr, Sem pensar em nada de importante, Apenas a ouvir o murmúrio do silêncio. Pessoas apressadas, sombras que dançam, Vão e vêm, como folhas ao vento, E o vai e vem dos carros? Num ritmo estonteante, sem consciência. Espero, imóvel, até que um grito, Rompa o silêncio e me acorde, Desta letargia ambulante, Deste corpo morto que me envolve.

Geométrico sentimento.

  A verticalidade do teu olhar deixa-me estacado. Estacado nesta imobilidade física de não ter para onde fugir, Deixa-me, também, num estado de dormência total. E os meus sentidos deixam de ter sentimento, E os meus sentimentos deixam de ter sentido. E assim, cada vez que me olhas nessa verticalidade, Eu sinto-me, apenas e só, uma pálida imagem da minha própria existência, Apenas acalentada pelo  calor do teu olhar.   Imagem:  https://pixabay.com/pt

Que força...

Que segredos escondes nas cicatrizes que transportas? No olhar cansado que mostras, Nos lábios já secos de tanto gritarem, Nos braços flácidos de tanto puxarem, Nas pernas bambas que te levaram. Que segredos contas? Não me dizes? Que sentimento é o teu que me causa arrepios, Que coração de pedra (que não tens) te faz parecer tão frio. Ambos, no fundo, sabemos que os teus segredos não são mais que o resultado das lutas que travaste. Agora, cansado, derrotado, cais para o lado, sem amparo. Nem o sustento que deste aos sustentados te sustenta uma ínfima vontade de viver. A última das tuas forças não vai para ti, Mas para dentro dos teus pensamentos, para a cova que te espera, fria e húmida. Esconde ela também um segredo, O segredo da vida eterna.

O Mar

      O Mar salta na areia, sem parar. O Mar galga as pedras, sem temor. O Mar sopra na espuma, ventania. O Mar engole o homem, sem pudor. O Mar cansa-nos com o seu sal. O Mar cheira e sabe a sal. O Mar cobre-nos de vida, porque alimenta. O Mar alarga os horizontes. O Mar justifica o horizonte. O Mar é canção que não cala. O Mar, o nosso Mar, é tão diferente. O Mar, somos nós e ele. Até que o Mar bateu à porta e num instante o seu corpo se deitou inerte, no seu leito de amor.

Até que as forças não desapareçam

A cada crise que aparece, parece-me que se desmorona o castelo que infinitamente vou reconstruindo. A cada ameia que cai, a cada pedra que se solta, é mais um esforço que faço, na tentativa de unificar o meu “quadrado”. Os castelos são mesmo assim. Erigidos pedra sobre pedra, sem argamassa interligante, fortes e resistentes. Esses são os castelos, os verdadeiros, os medievais. Os outros, os da mente, não são iguais e basta uma pequena aragem para o deitar abaixo. E vamos, momento após momento, reconstruindo, pegando na mesma pedra que colocámos ontem, e, teimosamente, a acomodamos no mesmo exacto lugar, até que as forças se esgotem, até que pesada pedra vença o pensamento atordoado pela negatividade, o corpo cansado pela luta incessantes contra a ansiedade.   

Por Entre Ruas Estreitas

 Quando perdeste o sonho e a certeza tornaste-te desordem e fizeste-te nuvem. Simónides de Kéos, Epitáfio nas Termópilas   Por entre ruas estreitas avanço o meu olhar, mais e mais longe, o quanto posso alcançar. Vislumbro mal, mas sinto o cheiro desse mar revolto, dessa maresia esvoaçante, carregada de histórias dramáticas. Penso em encará-lo de frente, lutar com ele, mas talvez não, talvez apenas me sente aqui, onde é seguro, onde o posso enfrentar, cobardemente. Olho em redor. Vejo por entre a névoa dos meus olhos, o velho “suberco” e o “canto” das pedras, mais visível, as pedras que caiem, sem aviso, ao longo de várias existências, mas é o canto das pedras. Que histórias conta? E o canto do mar, que também canta, e o canto dos barcos, dos bois, das redes, dos pescadores, das mulheres a praguejar na praia, os cantos de tudo o que dava vida a esta terra. Estão “quasi” todos mudos, avariados, qual telefonia. Só já resta aquilo para que olho, porque é aquilo que ainda vejo, teimosamente...